Mudar as moscas ou mudar o monte?

Mata moscaConfesso não me recordar de quando o grupo “Ultraje a Rigor” lançou a música “Rebeldes sem causa”. Suponho tenha sido há, pelo menos, duas décadas. As letras, a princípio, soaram como molecagem, ironia esculachada, algo assim. E, no entanto, revelavam uma situação que consolidada no Brasil: a juventude – com tanto que os pais lhe davam – não tinha bandeiras pelas quais lutar. Tendo quase tudo, não precisando ir em busca, caíra no vazio. Restava-lhe, então, protestar. Sem saber do quê ou contra o quê.

Na atual campanha eleitoral brasileira, já estamos vivendo a superficialidade, um “je ne sais pas”, um “não sei” de muito barulho e de pouca explicação. Muitos sabem contra o que protestam e de quê reclamam. Multidões esparsas, no entanto, xingam, reclamam, agridem, protestam sem tem explicações. De alguma forma, são rebeldes sem causa, de que nos falara, antes, o Ultraje a Rigor. Multidões saíram de situações dificílimas para obter novas oportunidades de se desenvolver. Supermercados estão lotados; o brasileiro gastou mais de dois bilhões de reais, apenas no mês de julho, em viagens ao exterior; a saúde, por pior ainda esteja, melhorou; a segurança é problema crescente, mas de responsabilidade dos governos estaduais. Está tudo ruim? Não. Muita coisa há de ruim. Mas o Brasil é outro, apesar dessa congênita melancolia de um povo formado por raças tristes. E, paradoxalmente, alegres quando amam e se divertem.

Se bem analisarmos ou pensarmos, não há clareza naquilo de que se reclama, da mesma forma como não há um mínimo de objetividade nas propostas dos candidatos que disputam as eleições. Sim – em especial nos centros urbanos mais povoados – há questões gravíssimas a resolver. E elas se agravam e se tornarão mais sérias se não houver, em primeiro lugar, verdadeira consciência das populações. O trânsito – a tal mobilidade urbana – por exemplo, jamais será resolvido se não houver consciência do cidadão. Prefeitos e governadores mentem ao dizer que têm soluções. Não há, a não ser algo revolucionário e radical, com a participação do povo na criação de outras opções de locomoção. Mas quem abre mão de seu carro, mesmo que sirva a uma só pessoa?

A campanha eleitoral parece jogo do Corinthians. De um lado, o próprio Corinthians – na figura da Dilma – com sua torcida fiel, até mesmo irracional. E, do outro – seja qualquer for o adversário – todas as demais torcidas contra. O importante, nesta eleição, se tornou derrotar Dilma. Não importa como, não importa com quem, e não importa porquê. Há que se derrotar Dilma e acabou, algo neurótico, beirando à paranóia. Não interessa seja Aécio, Marina, Fidélix, Eduardo Jorge ou outro qualquer. O importante é jogar contra, mesmo sabendo que o adversário é frágil e irá tornar-se um problema maior. Mas, na farra dos “sem causa”, a lei é aquela nossa velha conhecida: “Vamos ver no que dá para ver como é que fica.” Mesmo que seja o caos.

No entanto, isso – que parece uma tragicomédia ou pantomima tradicional – nada mais é do que o cenário da verdadeira tragédia brasileira: a absoluta inutilidade do que irá acontecer, de quem será eleito. Não estamos em uma democracia, mas num arremedo dela, com noções de liberdade que apenas favorecem os que já têm força e poder. O brasileiro – e volto a insistir nisso, como num sambinha de uma nota só – não escolhe, não decide, não participa. Simplesmente, ao votar, dá legitimidade a uma farsa. Por isso, ninguém, absolutamente nenhum dos candidatos poderá ou irá governar com seriedade. Nenhum, depois da democratização, o conseguiu: Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma. E, se reeleita, Dilma terá que continuar compondo-se, negociando com o mundo cão de Brasília. E Marina, também. Especialmente Marina, que não tem base parlamentar nem partidária.

Estamos, novamente, discutindo, xingando, brigando apenas para saber se mantemos as mesmas moscas ou se as trocamos por outras. E o problema está no monte – no monte de sujeiras, monte estrutural, oligárquico – que continua o mesmo. Se não mudarmos o monte, a farsa continuará. É simples assim.  Bom dia.

1 comentário

  1. Jairo Teixeira Mendes Abrahão em 09/09/2014 às 10:26

    Amigo Cecilio.
    Seu texto, como sempre é um conjunto harmônico de verdades. A harmonia é sua!
    Abraço.
    Jairo T. M. Abrahão

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