Olhar sobre a juventude

Antigamente, eu me preocupava com algumas coisas, especialmente por ter pertencido a uma geração que se havia proposto transformar o mundo. Até que foi bonito. E os moços de hoje não podem entender, pois já encontraram o angu feito. Mas cada passo de liberdade que se dava era uma vitória, uma grande vitória.

Hoje, seria ridículo dizer, por exemplo, que era uma grande vitória comprar uma camisa vermelha e sair por aí. Ou deixar o cabelo crescer. As coisas eram tão certinhas naquele mundo dos anos 40 que sair um centímetro das linhas demarcatórias era um grande feito. E foi de centímetro em centímetro que começamos a romper as linhas, até que tudo se rompeu. As prisões, os preconceitos e os tabus eram tantos que parecia não ter fim ir derrubando-os. E tanto foi derrubado que, quando nos demos conta, já não havia pedra sobre pedra, apenas escombros. Ou seja: destruímos o que existiu, não construímos nada em seu lugar. E é essa a herança dos jovens, que dançam e vivem sobre escombros. Até recentemente, eu me preocupava com esse olhar catatônico da juventude, com essa alma de isopor, com o medo que a domina de ter emoções, até mesmo de amar. Cansei-me de ouvir jovens dizerem que tem medo de amar, medo de se machucar. E uma geração que não aceita ou admite riscos, que, acima de tudo, está em busca da segurança, da estabilidade. Ora, nada conheço de mais seguro do que se esconder dentro dos muros de um cemitério, essa paz dos cemitérios.

Até recentemente, pois, eu me preocupava com essas coisas, com algumas dessas coisas. Mas deixei de preocupar-me. Se a juventude fez uma opção pela apatia, pela indiferença, se não há nada que a motive, se os objetivos de vida se tornaram pragmáticos, para não se dizer que cínicos, o jeito é deixar estar para ver como é que fica. O triste de tudo é que a vida passa, que a juventude acaba. E, então, quando a maturidade chega, não há quem deixe de olhar para trás e ter alguma forma de lamentação.

E as lamentações que mais ouvi e ouvi – e, também, as que faço e fiz – são no sentido de não ter feito mais coisas, arrependimentos por aquilo que deixei de fazer. Chegará um momento em que os jovens irão amadurecendo, vendo os filhos se tornarem adultos, casarem-se, os netos chegando, a aposentadoria, a casa própria, as férias anuais, os domingos com os almoços em família, a poltrona para se ver Silvio Santos – e, então, dia mais, dia menos, virá a pergunta: “o que fiz da minha vida?”. E a resposta será apenas uma: fizeram a opção pela segurança, pela estabilidade, recusaram-se aos riscos, à aventura, deixaram-se enquadrar ou escolheram ficar dentro do círculo. Isso me preocupava. Agora não me preocupo mais. Sou da geração que quis salvar o mundo. De tanto querer salva-lo, aprendemos uma lição: temos que viver a aventura de nós mesmos. Ser guerrilheiros por dentro.

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