Primeiro táxi, para não esquecer

Ora, é inesquecível a primeira vez. De tudo. O primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira professora, o primeiro susto, o primeiro medo, a decepção primeira. Para mim, acaba de acontecer-me o primeiro táxi, o que me conduziu à Rua do Porto de meus entardeceres, da passarinhada à beira-rio, do chopinho com caipirinha e lambarizinho frito, da conversa à toa, da filosofações diante do mundo.

Não me coloco entre os indignados com o que já se chama de “Lei Seca”. Não. Era necessária. Não se trata mais, penso eu, de beber em excesso, pois a humanidade se embriaga desde os tempos de Noé. Agora, é a realidade urbana, os meios de locomoção, o voluntarismo, a violência, os veículos como arma. Nas pequenas cidades e na zona rural, havia – ainda deve haver – homens e mulheres que se embriagavam até o desmaio final. Mas as ruas eram vielas, estradas de terra, pessoas que caminhavam com os próprios pés, em lombos de cavalos, em carroças. Isso existiu. Ainda existe.

Admito ter-me assustado, pensando em mim próprio. Vejam bem: mais do que egoísta, sou egocêntrico. O centro do mundo está em meu umbigo, na minha cidade, na minha casa. Por isso, a tal “Lei Seca” me apanhou de surpresa: como irei, a partir de agora, à minha Rua do Porto?

A grande questão não é a bebida em si mesma, mas o prazer do convívio, da compartilha, da vida social. A lei parece-me correta, mas niveladora como todas as leis. E estamos, assim, de volta à injustiça milenar: “Inocentes pagarão pelos pecadores.” Senti-me, de repente, pagando pela violência e estupidez de outros, de irresponsáveis, já que me incluo entre os que sabem haver, na bebida, ciência, arte e sabedoria. Pois há uma arte de beber, na delicadeza, no refinamento, na degustação, no prazer do convívio. Há a ciência de beber, como conhecimento e experiência, que avisa o limite do deleite. E há a sabedoria do prazer da bebida, como os deuses que bebiam do néctar, como os apóstolos que tomavam do vinho na última ceia, como a dos sacerdotes que acreditam beber do sangue de seu próprio deus.

Senti-me, enfim, injustiçado: “E meu chopinho na Rua do Porto?” A arte de beber está no ritual e na celebração, a dois ou em pequeno grupo. E minha Rua do Porto é parte de tudo isso, meu espaço de encantamento, meu fetiche, um lugar que penso existir muito mais conforme as minhas lembranças e imaginação do que, na verdade, como é. Nela, eu me sinto vivo como o rio que passa, que se vai.

Aplaudi a Lei Seca. Mas como ir à Rua do Porto? Por alguma semanas, não fui. Diabólica como toda mulher, Eva ouvindo a serpente, a minha me atiçou: “Vamos lá. Só um chopinho, não acontece nada.” Resisti. Sou diabo velho. Já conheço essas histórias de Eva, de Dalila, de Betsabá, de Salomé, de Mata Hari e, também e até, a de Mônica Lewinsky. Por isso, resisti. E chamei um táxi.

O nome do taxista meu amigo é Lero. Ele arregalou os olhos: “Até à Rua do Porto, dotor? Vai chovê?” A dona do boteco, quando cheguei: “Uai, ocê tá doente?” O primeiro chopinho amargou na boca, a sensação de ter sido traído, algo assim. Mas, a partir do segundo, a vida se tornou risonha e franca, a consciência tranqüila de poder, se visse um policial, mostrar-lhe a língua ou lhe dar uma banana. Gostei. Do primeiro táxi, pois, não irei me esquecer jamais.

À saída, a dona do boteco, com olhar nostálgico, me falou: “Quem diria, hein? Você, na Rua do Porto, com táxi… Eta nóis! Estamos parecendo londrinos, não?” Bom dia.

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