Professor, clientela e mercado

Que o professorado ainda irá passar fome, sobre isso já escrevo há tempos. E me aperta o coração lembrar-me de dona Romilda, minha primeira professora, por quem me apaixonei ainda criancinha e para quem roubei flores. E do prof.Benedicto Antônio Cotrim, figura humana das mais admiráveis que me abriram caminhos.

Quanto, cada pessoa, deve a seus professores? O que seria da infância, da juventude, da sociedade não houvesse professores idealistas e missionários? Lembro-me deles, penso nos atuais professores, a ternura por eles se transforma em rancor para com os governos. E não tenho escrúpulos de falar em ira e rancor. De em quando, é salutar. Lava a alma. Ora, todos sabemos que ódio e amor caminham juntos. Minha alma geme de ternura por meus antigos professores, range de raiva de governos.

Antes de prosseguir, explico-me. Leio os jornais logo pela manhã. O certo seria parar de fazê-lo, em favor de minha saúde física e psicológica. Pois a a tal mídia – que, em Latim, é media – quase em geral parece ter-se associado à indústria farmacêutica, especialmente à em medicamentos para a depressão. Os jornais ajudam a deprimir, pessoas se deprimem, farmácias vendem antidepressivos. Seria um complô internacional: jornais, tevês, indústria, farmácias, médicos, balconistas. Escolhem-se as notícias certas: mortes, assaltos, desemprego, a maldição das bolsas de valores, estupro, desesperança, seqüestros. Não há quem resista: depressão garantida. É o que me acontece em cada manhã: leio jornais, peço que parem o mundo para eu descer. Não quero mais viver em lugar tão infernal. O Paraíso virou Vale de Lágrimas.

Pois bem. Li os jornais, fui barbear-me, meu momento sagrado de pensar, quando as idéias acontecem. E, atiçando-me os ódios, havia informações trágicas: passa de um bilhão o número de pessoas famintas no mundo; o governo de Barack Obama, ao mesmo tempo em que ele próprio foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, autorizou fosse a Lua bombardeada pela NASA; Kaká, Robinho e Ronaldinho estão entre os jogadores de futebol mais bem pagos do mundo, sendo que Kaká recebe cerca de 20 mil reais por dia. Quanto ganha um professor brasileiro? Por que prestigiamos mais atletas em vitrinas e beldades nas passarelas do que os mestres primeiros de nossos filhos e netos?

Entre saudoso e irado, lembrei-me de uma antiga idéia que já dei a governantes, incluindo os do município. Já que tudo se resume a mercado, a minha é uma proposta mercadológica. E que tal comercializar o ensino fundamental? Seria simples: as escolas, obviamente, continuariam miseráveis, capengas, inadequadas, mas os professores teriam uma cooperativa apenas deles. A Prefeitura – que permite tudo nas ruas e nas praças, desde ambulantes a exploradores de menores – poderia ceder a Praça José Bonifácio onde a cooperativa de professores ministraria aulas a quem estivesse interessado e para onde os pais levariam seus filhos.

Ora, no filme “Central do Brasil” – lembram-se? – a Fernanda Montenegro escrevia cartas para os pobres analfabetos. Em Piracicaba, os professores montariam barraquinhas – sem a Prefeitura cobrar nada, nem taxa de licença – e receberiam por cabeça, digamos que uns 10 reais por criança ou por analfabeto. Seria altamente rentável, resolveria a vida de todos ao melhor estilo mercadológico. Mesmo porque, nos últimos tempos, donos de escolas referem-se a alunos como “clientela”. A conotação é a mesma de freguês. Que os professores ingressem, também, nesse mercado. Pois, se aluno é clientela, o mercado paga melhor do que o Estado. Bom dia, esse dos professores.

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