Quando as elites reagem

ElitesSão dois, via de regra, os grandes movimentos sociais provocadores de transformações: o das massas, em estado de rebelião; o das elites, quando ameaçadas. E, apesar das idiossincrasias de intelectuais e de ideólogos, os movimentos mais rápidos, menos traumáticos, às vezes até mesmo com soluções mais adequadas ao momento histórico, talvez sejam os desencadeados pelas elites. Mas isso não significa sejam os mais justos. Afinal de contas, é sempre melhor perder os anéis do que os dedos…Nem sempre, porém, os anéis perdidos compensam insensibilidades passadas.

Piracicaba está vivendo, a partir de suas elites, movimentos no mínimo interessantes. Começou com “Piracicaba 2010”, que foi um diagnóstico e uma radiografia altamente importantes para a comunidade. Está ocorrendo com obras de voluntariado. Empresas e instituições mobilizam-se nem sempre organizadamente, mas com resultados setoriais favoráveis. As igrejas fortaleceram sua ação social, na mobilização de suas paróquias e em suas diversas pastorais. As elites se inquietam e se movimentam. O medo move.

A violência chegou às elites, atravessando até mesmo os condomínios fechados, apartamentos e casas com sofisticados sistemas de segurança. Não se sabe mais o que fazer. Há, ao mesmo tempo, uma descrença no poder público e uma quase desesperada necessidade de colocá-lo, como réu, contra a parede. Se esse mínimo de credibilidade não existir, não há dúvidas de que as elites irão organizar-se – a exemplo do que ocorreu no passado e já ocorre em algumas localidades – criando o seu próprio sistema de segurança particular, um governo próprio, com suas já existentes guardas pessoais, de condomínios, de empresas. O Brasil, então, estará entre duas pontas e entre dois governos particulares: de um lado, o Estado dos Bandidos; de outro, o das elites. O povo continuará órfão.

Se enfatizamos mais essa mobilização das elites, é para alertar o poder público municipal. Pois, entidades e grupos populares começam a se reunir, discutindo segurança, mas excluindo representantes do poder público. Algo errado, pois, acontece. Ou os governantes não estão conseguindo explicar ao povo o que faz o organismo oficial ou nada se está fazendo. Ou as elites não acreditam ou as elites não querem participar de programas coletivos e comuns. Isso é preocupante pois a visão de segurança das elites é, como sempre foi historicamente, personalista e grupal. Suas análises são imediatistas e superficiais, escapando-lhes reflexões e elucubrações sobre a origem da violência. Buscando soluções rápidas, emergenciais, evitam questionamentos de estruturas sociais, econômicas e políticas, entre outras. Quando as elites se organizam para enfrentar a violência, pode-se ter como certo que, de suas conclusões e providências, o povo estará ausente. Pois, para elas, a violência vem do povo, dos marginalizados, nunca das estruturas injustas e de um sistema econômico pérfido dos quais, como elites, fazem parte.

Da mesma forma como se tornam condenáveis movimentos populares que desprezam a lei, há que se preocupar com movimentos de elite em face das questões sociais. Suas soluções diante da violência podem ser exclusivistas e ainda mais marginalizadoras. É de causar apreensão saber-se de reuniões, tratando de problemas graves como a segurança pública, que excluem a presença da representação política. Ora, se as elites deixarem de considerar a violência como um gravíssima questão política, há que se desconfiar do espírito coletivo de tais reuniões.

Já aconteceu em Atibaia e a imprensa praticamente silenciou. As comportas da represa foram abertas a partir de uma invasão de particulares que, desta vez, não faziam parte dos “sem terra” nem dos “sem teto”. Eram proprietários da classe média alta que, vendo suas casas ameaçadas, agiram pelas próprias mãos. Se fossem movimentos populares, haveria, como sempre, protestos veementes pela imprensa. Sendo invasões promovidas por proprietários pertencentes à elite econômica, não houve protesto. Seja o que for, o medo está no ar. De um lado, insuflando as massas populares; de outro, assustando as elites. Caso a solução venha de um ou de outro lado, serão emergenciais e, por isso mesmo, caóticas. O povo, cuja única defesa é a lei e o direito, continuará órfão. Bom dia.uando

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