Revendo filme da paixão

picture (32)Os olhos – ainda que grudados na cara – moram ora no coração, ora na inteligência. As mesmas coisas, vemo-las diferentemente se as olharmos com uns ou outros olhos, os do coração, os da razão.

Resolvi assistir, novamente, ao filme “Paixão de Cristo”, imaginando pudesse voltar a vê-lo com os olhos da razão. Não consegui. Eram os do coração que viam. E esvaziava-se, novamente, a enxurrada de críticas dos chamados especialistas. Para mim, conforme escrevi à época, o filme tem outro nome: “Paixão de Maria”. Assim fosse chamado, anular-se-iam as polêmicas de ser filme violento, anti-semita, homofóbico, machista. Pois tudo se torna secundário diante da dimensão ao mesmo tempo de agonia e de doçura impressa na tela: o olhar de Maria. Compreendi, novamente, porque a obra incomodou tanto à época de seu lançamento: é Maria e não Cristo o centro do filme. Depende do olhar.

Ora, a narrativa da condenação de Cristo nada tem de original, a não ser a rudeza de algumas cenas. No mundo judeu dominado por romanos, o cenário estava pronto: revolta, rebelião, confrontos, inconformação, corrupção, disputa por poder, lutas religiosas, conflito entre irmãos. Mas o mundo continua igual, até mesmo na violência da soldadesca, a tortura nas masmorras. O que há de novo sob o Sol de Israel e da Palestina?

No filme, o novo, penso eu, é Maria. “Paixão de Maria” deveria ser o nome. Pois o sofrimento é dela. O olhar humano, a dor e o amor humanos – essa humanidade é de Maria. Parece uma profecia, como se ela resgatasse a verdadeira alma feminina nessa quadra confusa da humanidade onde a própria mulher se diz indefinida em seu papel no mundo. Em tempos de mediocrizações, a grandeza silenciosa e a bravura de Maria emocionam e reavivam o que ainda há de nobreza na humanidade.

No filme, é falso dizer seja feminina a figura do demônio. A imagem é andrógina. E melancolicamente pobre a presença do homem: a hipocrisia dos sacerdotes, a covardia dos apóstolos, a fraqueza de Cristo, a ausência de Deus-Pai, a fuga dos amigos, a brutalidade dos soldados. Cristo é órfão de pai: José não aparece e Deus-Pai – quando chamado – além de não responder, permite a morte do filho, um Deus homicida. Mas Cristo tem mãe. Lá está Maria, em todos os instantes, a cada passo, a dor rasgando-lhe o coração, querendo levar o filho Jesus de volta ao útero.

O olhar de Maria a Caifás é o olhar das mães do Iraque, de Israel, do Líbano, da Palestina, aos sacerdotes e imperadores de hoje: “Por quê?” Um misto de perplexidade, de dor e, também, de raiva. E – ainda que menosprezada pela crítica – uma das mais belas e significativas cenas do filme parece-me a de mãe e filho diante da queda. Quando Cristo cai exausto, sem forças, Maria rompe o cordão dos soldados para tomá-lo nos braços. Lembranças retornam e ela o revê, menino, caindo no quintal, a angústia de mãe para erguê-lo do chão e niná-lo nos braços. Agora, é o filho-homem tombado.

Diante do Calvário, Maria quer o filho para si, desafiando céus, profecias, a vontade de Deus. Ela é mulher, coração humano, a mãe do homem Jesus, não de Cristo-Deus. Então, rasgando as unhas, arranca seixos da terra, prende-os nas mãos, como se, assim, segurasse o filho no mundo, impedindo Deus roubar-lho da alma. Mãe, Maria enfrenta Deus. Na cruz, Cristo expira. O Deus homicida vence. Exausta, Maria vê os seixos caírem-lhe das mãos: os céus foram mais fortes. Mas o filho é dela.

Rever o filme como “Paixão de Maria”devolve um alento: o mundo ressuscita pelo fogo do coração, das vísceras, do amor da mulher. Que, pelo filho, é capaz de lutar até contra Deus e os céus. Mas isso é, apenas, ver com olhos do coração. Bom dia.

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