Rio cheio carrega lama

Abismo econômicoA revelação foi feita no encontro da elite econômica global em Davos: apenas 85 pessoas possuem um patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população mundial. Ou seja: 3,5 BILHÕES de cidadãos. E, no alto da pirâmide, 1% (um por cento!) detém METADE da fortuna do planeta. É possível, então – seja lá por qual critério  – falar-se em justiça, em ética, em solidariedade? Permitiu-se – por força da própria injustiça – criar-se esse barril de pólvora global que começa a explodir.

Lembro-me de que – ouvindo, quando criança, as conversas dos mais velhos – eles insistiam em dizer: “Rio, que enche de repente, sempre carrega lama.”  Eram observações que  faziam sobre fortunas surgidas rapidamente, sem explicações, sem trabalho, sem mérito. Eram rios que, repentinamente cheios, carregavam muitas formas de lama. Isso ocorre em todo o mundo. Obviamente, em Piracicaba também.

Não se trata mais de ideologias, que elas se tornaram tolice. Pode-se ter certeza de que, quando se chama uns de comunistas e outros de direitas, se está, no fundo, falando de interesses ou apenas tolices. O próprio Marx – que começa a ser reabilitado em suas ideias que foram deturpadas – observara: “A cultura dominante é a cultura da classe dominante.” Não foi, não pôde e nem pode ser contestado. Toda a questão, pois, está em se localizar a classe dominante. Se ela é generosa e solidária, a cultura dominante será, também, solidária e generosa. Se é mesquinha e individualista, a cultura dominante será individualista e mesquinha.

Os sistemas econômicos são fundamentais exatamente pelos modelos que apresentam. O neoliberalismo impôs, ao mundo, a chamada – para dizer com simplicidade – “economia de mercado.” E criou uma classe dominante que, consequentemente, impôs uma cultura dominante. Que é a cultura do mercado. E mercado nada mais é do que um espaço de compra e venda de mercadorias. Logo, a cultura de mercado é, também, a de pessoas, valores, instituições  colocados à venda. Com a diferença de que, nos mercados comuns, pode-se pechinchar, trocar de bancas, escolher, tomar decisões. E, nas sociedades de mercado, deixam de existir valores que passam a ser substituídos por preço. Tudo se torna vendável e comprável, com preços estabelecidos, definidos de cima para baixo. Até as pessoas são simples objetos de compra e venda.

Estamos, na verdade, diante de uma escravidão branca, quase imperceptível, virtual, mas paralisante. Os donos do poder mundial precisam da autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, pois são eles que as controlam. Para isso, usam de todos os poderes para o enfraquecimento do Estado, que deve ser, especialmente nas democracias, o regulador e o tutor do bem comum. A corrupção é parte integrante de todo esse sistema, no qual a ambição do poder e do possuir não tem limites. Quanto maior a desordem social e sua falta de princípios, mais fácil se torna o controle de almas e de corpos. O Papa Francisco – com lucidez impressionante – detectou esse amortecimento da sociedade, à qual chamou de vítima da “cultura da indiferença”.

            Observe-se – insisto nisso novamente – que os “donos do mercado” tentam desmoralizar Francisco e Obama, tachando-os – numa estupidez vergonhosa – de comunistas ou de subversivos. Estamos, na verdade, em busca de um verdadeiro humanismo, que devolva, ao ser humano, a sua dignidade. Nada mais do que isso. E essa busca tem que ser alimentada por uma ética verdadeira e não ideologizada, e por um entranhado e inabalável sentido de justiça.

Quem leu a exortação apostólica de Francisco – “Evangelii Gaudium”, A Alegria do Evangelho – animou-se e esperançou-se com  análises e sugestões para entender e transformar os ásperos tempos. Quem não leu deveria ler. E urgentemente, penso eu. Bom dia.

4 comentários

  1. Delza Frare Chamma em 01/02/2014 às 13:08

    Cecílio, permita-me cumprimentá-lo pela crônica de hoje e inclusive transcrever um trecho dela, que, por sintetizar um dado concreto e real, se presta a reflexões sobre o assunto. Sobretudo sobre nossa modernidade. Pergunta que fica: em que direção caminha a humanidade neste século XXI, voltado ao avanço tecnológico porém esquecendo-se de que a desigualdade é sinônimo apenas de violência e desagregação? – “A revelação foi feita no encontro da elite econômica global em Davos: apenas 85 pessoas possuem um patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população mundial. Ou seja: 3,5 BILHÕES de cidadãos. E, no alto da pirâmide, 1% (um por cento!) detém METADE da fortuna do planeta. É possível, então – seja lá por qual critério – falar-se em justiça, em ética, em solidariedade? Permitiu-se – por força da própria injustiça – criar-se esse barril de pólvora global que começa a explodir.”

  2. Toni em 02/02/2014 às 09:35

    Bill Gates, sozinho, fez e faz mais pelas crianças africanas do que qualquer governo daquele continente jamais o fez. Buffet é outro grande benfeitor. Há milhares deses grandes homens. Para citar apenas um exemplo diverso, a melhor universidade do mundo, Harvard, foi criada e sobrevive de doações. Tivesse ficado para um desses governinhos que conhecemos neste continente, ela jamais existira. Teriam-na roubado e estaria quebrada.

    • Toni em 02/02/2014 às 09:37

      Corrigindo texto anterior: …milhares desses grandes…

  3. Antonio Carlos em 04/02/2014 às 18:05

    Se houvessem realmente JUSTIÇA e COMPAIXÃO, ninguém precisaria ajudar ninguém porque não haveria milionários e nem miseráveis.

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