Sem Abelardo, sem Heloísa

Dia dos namoradosEm “Dia dos Namorados” e de Santo Antônio, costumo prestar mais atenção aos casaizinhos. E, pelo que percebo, são os mais velhos e mais maduros os que ainda mostram demonstrações de amor e de carinho mais românticas, sei lá se estou certo. É que ando traumatizado com coisas que não mais sei se exemplos de falta de privacidade ou de pudor, mesmo porque, no fundo das coisas, a falta de uma é também, quase sempre, falta de outra.

Recentemente, numa farmácia, vi a jovenzinha sair do carro, enquanto o namorado a esperava, entrando com pressa e indo à prateleira onde estavam expostas camisinhas de Vênus. A moça apanhou um pacotinho e gritou, mostrando ao namorado: “É desta marca que usamos?” Ele assentiu e todos ficamos sabendo que eles iriam usar camisinha daquela determinada marca. Doutra feita e ainda por estes dias, foi-me impossível deixar de ouvir a moça dando bronca, ao telefone celular, no namorado, noivo, sei lá o Quê: “Então, você quer me dar lingerie no Dia dos Namorados? O presente é para mim ou para você?”

Ora, sei e insisto: fazer de conta é preciso. Imaginar coisas faz voar. Uma coisa puxa a outra, isso leva àquilo, de um ponto faz-se um conto. Mesmo quando há grosserias, costumo ver histórias de amor em “Dia dos Namorados”. A história da lingerie provocou-me outro lampejo na imaginação e, em seguida, um relâmpago. Na verdade, enjoado de materialismos, ando querendo inventar delicadezas, talvez simples e pálidas afetividades humanas.

Acabei por achar bonita a bronca da moça em relação à lingerie. E novamente pensei em Abelardo e Heloísa, sempre penso, eles que são ainda, testemunhas de uma das mais belas e dolorosas histórias de amor, lembram-se? Ele, Pedro Abelardo, teólogo e filósofo brilhante; ela, a jovem discípula, adolescente, indo iluminar-se da cultura do mestre, encontrando o amor proibido, voraz. Na minha juventude, padres e freiras proibiam a leitura do livro de Abelardo e Heloísa. Fui lê-lo apenas muitos, muitos anos depois.

Quando se conheceram, Abelardo teria 39 anos, Heloísa, apenas 16, diferença de idade que, hoje, seria ao contrário: Heloísa teria uns 40, procurando um Abelardo de 20. Mas, tudo bem, vamos em frente. Abelardo era pacato e sábio e Heloisa, sobrinha de um cônego feroz e moralista de conveniência. Daqueles amantes medievais, diz-se que, além da inteligência fulgurante, a sensualidade e beleza de Abelardo magnetizavam. Ele, nas cartas, confessa que o tio de Heloísa lhe confiara a menina como quem “ entrega um cordeiro a um lobo esfaimado.” Nem os céus conseguiram impedir: lobo esfaimado e ovelhinha ingênua amaram-se loucamente, às escondidas, em lugares proibidos: capelas, sacristias, igrejas. Heloísa engravidou e nasceu-lhes um menino, Astrolábio.

O escândalo abalou estruturas eclesiásticas, familiares, universitárias. Heloísa recusou casar-se: era-lhe, dizia, mais honroso ser amante do jovem sábio, do que esposa, atrapalhando-lhe a carreira “com vagidos de criança, barulho das amas”. Sábia, a Heloísa. Mas casaram-se para evitar mais escândalos, em sigilo. E nem isso impediu o amargo final, a tragédia que conhecemos: o tio, enfurecido, mandou castrar o infeliz Abelardo. Humilhados, feridos, separaram-se, recolhendo-se em conventos.

À morte de Abelardo, Heloísa mandou fazer-lhe o túmulo que seria, também, o seu jazigo. A lenda final, gostaria eu de tê-la escrito: quando sepultaram Heloísa, os restos de Abelardo aguardavam-na de braços abertos. No mais belo cemitério de Paris, o do Padre Lachaise, jardim edênico, jazem os amantes, próximos de Proust, Balzac, Chopin, tantos outros.

Toda essa história não teria acontecido se, naqueles tempos, Heloísa tivesse entrado numa farmácia, comprando uma camisinha. Para se ver que se não mais fazem Abelardos e Heloísas como antigamente. Bom dia.

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