Sem ressaca

Cheguei a admitir que minha decisão de não votar nas eleições municipais pudesse, ao depois, trazer-me sensações ou sentimentos negativos. Remorso, arrependimento, tristeza, sei lá. No entanto, não houve ressaca alguma. Pelo contrário, aconteceu a confirmação de ter sido decisão em harmonia com meu coração e consciência. E isso se me confirmou – fortalecendo-me as convicções – ao assistir a um debate entre cientistas sociais num canal de televisão. Simplificando os argumentos deles: apenas eleições – especialmente como as que têm sido realizadas – não comprovam a existência de uma democracia brasileira. Ela está capenga. E é uma farsa que favorece a poucos.

O povo não escolhe nada e ninguém por decisão própria. Nas estruturas atuais, o eleitor apenas opina diante de escolhas que lhe foram impostas. O processo vem de cima para baixo. Centenas de partidos – a grande maioria deles sem qualquer substância – escolhem os que serão abrigados em suas legendas, dando importância maior a pessoas populares, profissional ou folcloricamente. Para usar linguagem culinária ou gastronômica, não há uma oferta “à la carte”, mas um cardápio já escolhido, preparado, que não admite outras opções.

Ora, será um tolo aquele que negar as mudanças havidas no Brasil nestes últimos dez anos. E, em muitos setores e áreas, para melhor. Parece – apesar de tantos pesares – estarmos caminhando na direção correta. Precisaremos, no entanto e ainda, de décadas de consertos, de realizações, de reparação de injustiças, de investimentos nas duas áreas fundamentais: educação e saúde. Democracia nada tem a ver com economia de mercado desregulada. O nome disso é bagunça. E as conseqüências estão à vista de todos: vantagens imensas para grupos poderosos – mesmo que provincianos – e a mediocridade para a grande maioria.

Essa nova classe média de que tanto se fala deveria ser chamada, na verdade, de classe medíocre. O médio é medíocre. E mais medíocre ainda quando é qualificado a partir de sua capacidade econômico-financeira, capacidade de consumo. Classe média forte – e detesto falar em classes, pois são qualificações detestáveis – é aquela que manifesta valores culturais, espirituais, como que síntese de um povo, de uma história, de uma nação. Apenas a capacidade de consumir, este é um critério absolutamente falso e enganoso.

O fato é que não votei e não tive ressaca. Nenhum arrependimento, nenhum remorso. Ficou-me, porém – e confesso-o amargamente – uma tristeza imensa de admitir que até mesmo um dos valores mais sagrados pelos quais lutei – o voto livre, consciente, aberto, numa democracia verdadeira – foi de tal forma mediocrizado que precisei, como decisão extrema, renunciar a exercê-lo. Foi triste, mas me fortalece talvez como um sinal de nova esperança, de uma nova motivação: não seriam o repúdio, o protesto, a recusa de participar de farsas, a indignação o caminho de uma nova revolução?

Tomara seja. Pois acredito – e aguardo-a ainda – numa nova, legítima, necessária e definitiva revolução. Digo da revolução moral. É dela que precisamos: a revolução que imponha uma ordem moral defensora e guardiã da honra e da dignidade do homem brasileiro. O problema, em meu entender, não é político, nem econômico, nem partidário. É moral. Restabelecendo-se princípios, os monturos de lixo serão sepultados, postos em seus devidos lugares. Nenhuma nação se constrói e sobrevive quando o lixo está na cúpula. Bom dia.

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