Seresteiros, serenateiros

picture (2)Há, no mundo, como que uma febre preservacionista, de apego a raízes e tradições. É a memória vingando-se, como se escapasse de baús onde explosões libertárias a esconderam. Após ditaduras e silêncios, houve liberticídios. Como rios represados, fomos rompendo, à primeira brecha que se abriu, tudo o que houvesse de balizas, mesmo as sagradas. Em nome da liberdade, cometeram-se crimes. Aos poucos, a poeira baixou, clarearam-se os horizontes: ainda, havia luz

Se, no século passado, o final dos 50, início dos 60 foram tidos como “anos dourados”, as décadas de 70 e 80 podem ser lembradas como tempos iconoclastas. A partir do “é proibido proibir”, uma única idéia pareceu correr mundo: destruir, romper, quebrar, incinerar. A juventude parisiense de 1968 foi tímida se comparada à fúria da juventude chinesa durante a “revolução cultural” de Mao. Foram tempos em que o mundo parecia desmemorizar-se, como se memória fosse atrapalhação. E é. Porque mostra a raiz.

Há, pois, uma febre de redescobertas, de valorização de raízes, de preservacionismos culturais mesmo quando abertos ao universalismo. A chamada “cultura pop” – que impingiu lixos culturais a todas as nações – começa a refluir, desbordando para a marginalidade. O “pop”, de vanguardista que foi, lá se vai mergulhando no lixo. “Pop” e violência deram-se as mãos. O mundo descartável, repensando-se, vê tesouros ocultos sob os escombros e entre as ruínas.

A economia globalizada, sem construir um mundo unificado, produziu o que os mais atentos previam: a fragmentação. Fragmentou-se o pensamento único, fragmentaram-se a cultura e o espírito utilitarista. E, ainda limpando-se da poeira, ressurge o humanismo. Sem pedir licença. Sem donos. Brotando, límpido, de suspiros de cansaço e de respiros de simplicidades. O ser humano reaprende o que as mariposas sabem: queimam-se-lhes as asas, se expostas demais à luz e ao calor. Sem asas, elas não têm importância. Sem o sonho, o homem também não.

Serestas, serenatas são parte dessa memória redescoberta, de um renascimento. Elas ressurgem no Brasil. Uma cidade fluminense, Conservatória, continua colhendo admirações por seu culto ao lirismo e à memória. Com pouco mais de 4 mil habitantes e ao pé da montanha, Conservatória atrai multidões que buscam o romance e a doçura das serenatas e das serestas. E Conservatória esclareceu o que, pelo menos em Piracicaba, sempre se discutiu: o que é seresta, o que é serenata?

Por aqui, sempre foi serenata, ainda que feita por seresteiros. Na verdade, serenatista ou serenateiro seria o nome dos noctívagos das serenatas. E seresteiros, os das serestas. Mas o que é seresta, o que é serenata? Aprendia-se com Antenor Nascentes: seresta é brasileirismo de gíria carioca. Serenata é a serenada, que se faz ao ar livre, ao sereno. No fundo, era o velho “choro” com cavaquinho, violão, bandolim, perambulando pelas ruas. Deu em coisas de amor.

Em Conservatória, chegou-se a um acordo: ao sereno, é serenata; em ambiente fechado, seresta. E seresteiros os que as fazem, uma ou outra, uma e outra. Basta estar apaixonado. Ou ter estado. Ou sentir saudade. Para se ver que o amor de serestas, serenatas e seresteiros, esse, o mundo descartável não conseguiu vencer. Bom dia.

Deixe um comentário