Um meu adorável Ferreira Barros

picture (20)Desde a expulsão do Paraíso, cada qual carrega sua própria cruz. E sei lá se na esperança de um eterno retorno, qual o de Nietzshe. E sei lá se como um Proustzinho caipira, em busca do tempo perdido. Minha cruz, pelo que sei e sinto, é cruz, mas leve. Pois a aceito e a carrego prazerosamente: é a cruz de – tendo vivido tanto e tanto tendo visto e acompanhado – estar destinado a viver a memória. É a cruz de ser contador do acontecido e, portanto, de dizer, como o poeta: “Meninos, eu vi.” E quanto vi!

Rendo graças por essa longevidade, não tanto em idade, mas em vivência. Vivi, sinto-o, mil anos. E os vivi intensamente nessa minha existência mais do que cinqüentenária na terra, que eu amo tanto e à qual, por paixão, doei e dôo minha vida, não me importa o que digam políticos de esquina. Minha cruz é, de certa forma, como a do Judeu Errante: sem, sequer, o direito de morrer. Para contar, narrar, gritar, protestar, contestar. Ora, há coisas que eu sei. E eu seria um idiota completo se negasse sabê-las.

Barjas Negri treme diante do que eu sei. Thame, também. E outros e muitos, por aí. E os tantos que tentaram e tentam silenciar-me, num tempo em que a Internet arrebentou com capitanias hereditárias e com chantagens político-econômicas. Não há mais como conter a informação democratizada, como impedir o pensamento e a circulação de idéias. Esses 500.000 mil visitantes – meio milhão de cliques! – muito mais do que me darem alegria e envaidecimento, dão-me um peso ainda maior à cruz que carrego e que aceitei: a de ainda contar, a de ainda estar atento. E conto da minha vida também, expondo-a aos apetites de políticos, com minhas paixões e desejos,erros e equívocos, mas com minha conta bancária pobrezinha. Não consegui ser corrupto. Até tentei. Sou um fracasso moral.

Ora, e por quê essa luta pela Unimep, em defesa de uma idéia, de um sonho? Peço que Barjas Negri e João Manoel, respondam por mim. Desde, porém, que confirmado por Lineu Mafezoli. Aqueles sabem ou, se não sabem, fingiram que sabiam.

Nós sabemos e soubemos, vivos e mortos: Paulo Chécoli, Sid Azeredo, Pedro Caldari, Ulisses Michi, Antônio Perecin, Mário Stolf, Mauro Pereira Vianna, Gustavo Alvim, Walter De Francisco, Maurício Cardoso, Ludovico da Silva, Manoel Lopes Alarcon, André Meneghel, Elias Salum, Chico Gotardo, entre tantos outros e as moças que fizemos o primeiro exame vestibular na semente da Unimep, a ECA, no dia 1° de abril de 1964, dia seguinte ao golpe militar.

Davi Ferreira Barros nunca esteve nessa história.Ele pegou carona, depois. É, hoje, um intruso, ainda oportunista, como oportunistas e intrusos são esses novos grupos metodistas que buscam transformar a Unimep em fonte de renda para eles próprios. Insisto e mantenho: minha cruz é contar. Estou entre os pioneiros e fundadores da Unimep, sei da luta, do envolvimento de Piracicaba, da indústria e do comércio, de Mário Dedini e de Dovílio Ometto, de Antônio Romano, dos D´Abronzo. Davi Ferreira Barros e seus sectários nunca existiram.

Mas há um Ferreira Barros que, nessa história, precisa ser lembrado como exemplo de luta, de desprendimento, de paixão e de ousadia. O nome dele: Guilherme Ferreira Barros, o valente, o generoso, o bravo, o idealista, o sonhador, o rebelde com causas e, às vezes, sem causa alguma.

De Guilherme Ferreira Barros, tenho saudade intensa.José Coral deve lembrar-se, mocinho que era no início dos 1960: a Cooperativa dos Plantadores de Cana, um laboratório de transformações, liderada por Domingos José Aldrovandi. E Guilherme Ferreira Barros fazia parte daquele exército de mudanças, de indignações.

A alma se me incendiou quando Guilherme Ferreira Barros – valente e indignado – promoveu e liderou um grande movimento e uma explosiva passeata para tentar derrubar o então prefeito de Piracicaba, Alberto Coury. Piracicaba parou, Alberto caiu. O movimento daquele Ferreira Barros tinha uma causa: desmandos na Prefeitura, arbitrariedades, impostos extorsivos, informações mentirosas, desrespeito ao povo e à ordem democrática.

Guilherme foi tido – pela então UDN, mãe do atual PSDB – como louco, agitador. Ele, talvez, tivesse sido tudo isso, mas foi, em especial, um idealista, um sonhador. Ele derrubou os propósitos tirânicos na Prefeitura. E tanto foi sonhador que, ao final de sua vida, Guilherme realizou seu mais profundo sonho: ser jardineiro, criador de jardins. E eu lhe pedi que plantasse flores em meu jardim. Com Guilherme Ferreira Barros, aprendi a luta urbana, como se fosse uma guerrilha. E, depois da guerra, o plantio de flores.

Foi o que falei a alunos da Unimep: é preciso ter modelos, referenciais, exemplos para enfrentar e vencer o banditismo moral na educação, nas universidades. Guilherme Ferreira Barros é um dos modelos de luta e de indignação que, na minha cruz de contar, costumo sugerir à juventude.

Se Guilherme é pai de Davi Ferreira Barros – atual interventor da e na Unimep – isso pode ser simples coincidência. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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