Uma nova mas frágil elite

Balança socialDe minha parte, eu seria um tolo se, num texto jornalístico, me arriscasse a discorrer sobre conceitos de classes sociais e de elite. O tema é complicado demais e, até hoje, não se chegou a um consenso quanto a isso. As conclusões  dos estudos de Marx e de Weber – que coincidem em alguns aspectos – ainda são observadas, quando não propositalmente alteradas. Estamos em permanente “luta de classes”, vivemos sob o império do mercado, que define classes sociais?

Na realidade, ambas as situações convivem e confrontam-se ao mesmo tempo. Daí, uma pergunta que continua a se impor: formamos, no Ocidente, uma sociedade de classes ou uma sociedade classista? Ou formamos categorias sociais, como uma pirâmide onde o cume – minoritário – esmaga a base? De qualquer maneira, há um entendimento claro e geral: classes sociais existem como conseqüência de desigualdades existentes na sociedade.

Obviamente, Piracicaba não escapa a isso. As desigualdades existentes são aterradoras. E causam ainda mais indignação por se constatar que, mais do que classes sociais, formamos categorias sociais, grupos que se impõem por sua situação privilegiada no mercado. E são estes que – aparente ou episodicamente – formam a elite, circunstancialmente poderosa mas estruturalmente frágil. Essa chamada elite é composta por alguns poucos indivíduos ou grupos que se aproveitam das relações de desigualdade em relação ao poder. São esses poucos que concentram o poder em suas mãos, especialmente o poder político.

A teoria das elites – ainda que tão complexa quanto à das classes sociais – permite entender o egoísmo e, também, aspectos tirânicos desse minoria que se une por interesses comuns e é solidária para que as regras do jogo não se alterem. Ora, por apetites iguais, eles se alteram no poder. E isso continua a ocorrer em Piracicaba, em especial nesta última década, quando o poder político se aliou ao poder econômico, cooptando, também, o poder ideológico, representado pelos meios de comunicação, universidades, etc. O perigo é iminente e cada vez mais explosivo: a essa minoria – a que se chama de elite – se opõe uma maioria ainda silenciosa mas já rugindo, a que chamamos de massa. O confronto entre massa e elite – historicamente inevitável – acaba redundando na “luta de classes” prevista por Marx.

Em Piracicaba, são perceptíveis a existência de pequenos grupos de poder e a sua ação conjunta em detrimento dos interesses da maioria. Empresários e políticos uniram-se quase que despudoramente, sem que tivessem, até aqui, reações contestatórias, pois as que deveriam ser instituições de vigilância social – como meios de comunicação e o Legislativo – aceitaram ser alegremente cooptadas. Piracicaba ficou sem instrumentos de reação e de oposição, exatamente essa Piracicaba que foi, sempre, uma das mais fortes lideranças contra todas as formas de tirania e de opressão. “Remember”: a favor da República, pela libertação dos escravos, pelo constitucionalismo em 1932, pela oposição à ditadura pós AI-5, embora a elite político-econômico-ideológica daquele tempo tivesse aplaudido o golpe militar.

O mapa constitutivo dessa elite nova – mas frágil –  pode observado, em Piracicaba,  pela realização de obras municipais e pelo crescimento espantoso de empresas ligadas ao mercado imobiliário, de empreiteiras, de grupos facilmente detectáveis em colunas sociais e em revistas de futilidades. Formou-se uma aliança entre minorias ascendentes que se fortaleceram pela criação de um sistema de ação entre amigos, tornando Piracicaba feudo de seus interesses. Eles ainda sobrevivem graças ao silêncio dos que poderiam ser a elite pensante de Piracicaba, lamentável e estranhamente ausente desse processo de devastação histórico-cultural de nossa terra.

Na verdade, marginalizou-se propositalmente a verdadeira elite piracicabana, que é e sempre foi a pensante, a cultural, a das raízes históricas. O poder – quando medíocre – tem medo do pensamento e da inteligência. Em vez de socorrer-se dele, a falsa elite tenta amordaçá-lo. Luciano Guidotti foi um exemplo de inteligência política. Quase analfabeto, mas com grande poder econômico, Luciano entendeu que, para administrar, teria que cercar-se de uma elite pensante. Ele era um obreiro, feitor de obras, com grande tirocínio, mas sem conhecimento da realidade social. Intuitivo, socorreu-se da nata da intelectualidade de Piracicaba. Não teve medo da inteligência, pois o seu intuito era, realmente, servir. E conseguiu fazê-lo.

Hoje – debaixo do tapete desse conluio de poucos –  há muita coisa oculta, condenável, mas já perceptível. A população já sabe quem é essa falsa elite, nova mas frágil. E começa a reagir. Procedimentos judiciais despontam, máscaras caem, brigas internas se sucedem nos primeiros indícios do “salve-se quem puder”. Esses frágeis – mas escandalosamente atuantes – grupos de poder estão a perigo. Pois, por sua ação nefasta, permitem que a população compreenda e entenda que essa gente é a criadora de uma “democracia manipulada”. Construíram castelos na areia. Inevitavelmente, ruirão. Basta o povo conscientizar-se de que são os excluídos que derrubam Bastilhas. Ao acontecer, há que se ter esperança numa verdadeira, consciente e responsável elite piracicabana. Que voltaria a ser solidária. Bom dia.

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