Vingança da Primavera

PrimaveraAinda não compreendi por inteiro, mas sinto estar próximo de fazê-lo. O fato é que estou, dia a dia, cada vez mais tomado de uma crescente tristeza por não ser índio. Fica-me um vazio no peito, uma nostalgia, como se eu tivesse perdido um lugar do qual tenho apenas lembranças. Deve ser, sei lá eu, a nostalgia do paraíso perdido, mas a minha dói na carne como se fosse algo mais próximo, palpável, ainda possível de acontecer. Pensei fosse a Pasárgada de Manoel Bandeira, “lá onde sou amigo do rei.” Mas não é.

De repente, o céu se fechou quase que com timidez, o calor de Inverno rindo-se e zombando, como se estivesse prometendo frio intenso de Verão. E a tarde ficou depressiva. E, de minha pequenina janela de onde vejo a festa de cores e de pássaros, vi os primeiros pingos de chuva. Não, não os vi por primeiro, ouvi-os. Eles batiam nas telhas de minha quase mansarda, eram pingos tímidos. Fiquei em suspense. E se fosse apenas uma ameaça de chuva, justamente no Dia da Árvore, quase antevéspera de Primavera? Temi fosse apenas brincadeira das nuvens e que a chuva se fosse embora. Mas ela caiu.

A vontade de ser índio aumentou. Ou foi toda uma ancestralidade muitas vezes milenar que me foi possuindo aos poucos. E eu quis tomar chuva, como o fizera tantas e tantas vezes antes, desde criança. Ficar sob a chuva molhando-me, como sob bênçãos. E a chuva aumentou e os pingos pareciam cascatas. E meus receios desapareceram, enquanto o desejo acentuou-se. Desci para o jardim, a beleza das plantas, as flores, como que rindo-se para a chuva que caía, flores e plantas assanhadas, passarinhos voando como se banhassem, uma festa dionisíaca na alma das coisas. Joguei fora as sandálias, tirei a camisa, fiquei sob a chuva que era fria, de um frio zombeteiro. E tirei tudo, na solidão de meu pequeno mosteiro, a vontade de sentir-me um pequenino deus nu, inocente como criança ou como o primeiro homem a surgir na obra da criação.

Lembrei-me, novamente, do significado da palavra homem: húmus. Eu me senti húmus e vi que, antes de iniciar-se a Primavera, lá estava eu, em meu próprio cantinho, despido de roupas e de preconceitos, despido de razão e de condicionamentos, uma criatura pagã rendendo graças aos deuses das nuvens, dos relâmpagos, dos trovões, à deusa-chuva.

Quando – assustada mas ainda desavergonhada – a humanidade se intimida com as alterações climáticas, a natureza continua rindo de todos, mas vingativamente. Num Inverno de calor abrasante, ela apareceu e só não viu quem perdeu a capacidade de ver, de enxergar, de olhar. Pois os ipês roxos e os ipês brancos já cobriram calçadas e ruas com suas flores caídas; buganvílias de todas as cores explodem em beleza e a Primavera, mesmo com o enlouquecimento do clima, insiste em ser aquilo que é: anúncio de maravilhas.

No Oriente, onde me foi plantada a alma, a Primavera simboliza a celebração do início do mundo. Da mesma forma como o mundo surge do caos, a Primavera aparece como vencedora das atribulações do Inverno. É o Nisan também dos judeus, quando se come o cordeiro e o pão ázimo. Primavera é o triunfo do Sol e, para os cristãos primitivos, é a vitória do “Sol Cristo” sobre o caos do pecado e, portanto, sinal de recriação que se inicia com as águas o batismo. Primavera, pois, é batismo. É a vingança contra a nossa estupidez de não querer ver e nem enxergar.

Não há Pasárgada alguma para se ir, pois a que existiu, na Pérsia, desapareceu. A do poeta é aquela que cada um de nós pode criar para si mesmo, e ser rei de seu próprio canto e ser índio de sua taba, alma ingênua para inventar que trovões são deuses zangados e que a chuva são lágrimas de alegria ou maná caído do céu. Nu de corpo e nu de alma, fiz-me índio, batizando-me daquelas águas que caíam sobre mim. E me senti infinitamente mais humano nessa chegada da Primavera. Que me sirva de inspiração para, apesar de tudo, ainda crer no humanismo. Bom dia.

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