Vírus fascista

O sonho de liberdade – inato ao homem, transformado em busca incessante a partir da revolução francesa – é insuportável a reinados, ditaduras e impérios. Quanto mais livres forem os homens e os povos, menos possível será o surgimento ou a sobrevivência de ditadores e estruturas tirânicas. O neoliberalismo econômico – que ainda se disfarça sob o eufemismo charmoso de “globalização” – é uma das mais sutis formas de ditadura jamais inventada pelo homem. Com o controle mundial da economia, pensou-se pudesse controlar a vontade dos povos, subjugando-os pelo binômio quase imbatível dos poderios econômico e tecnológico. Poucos esperavam, no entanto, que a globalização produzisse um sentimento antípoda, de autodefesa ou de sobrevivência, sentimentos de fragmentação que se tornam perigosos por confundirem um nacionalismo saudável – na preservação da cultura, de raízes, etc. – com um nacionalismo xenófobo e, portanto, doentio.

A globalização econômica agravou os problemas sociais do mundo. As injustiças causaram fossos intransponíveis entre pobres e ricos, tanto entre nações como entre povos e indivíduos. O domínio da Terra por pequenos grupos foi avassalador, não respeitando etnias, geografias, culturas, povos, religiões. A hegemonia dos Estados Unidos – que representam, ainda hoje, o poder econômico e tecnológico mundial – tornou o mundo irrespirável. A arrogância estadunidense se fortaleceu em todas as áreas, chegando a ponto de desmoralizar ou de tornar inteiramente superada as próprias Nações Unidas. A política do “big steek” – que é a política da violência, do cassetete – ainda impera, embora mais sutilmente. O espírito da “América para os Americanos” está vivo e pulsante, significando o isolacionismo dos Estados Unidos em relação ao resto do mundo. É um espírito ditadorial, inspirador de fascismos e de nazismos, de violências e de arrogâncias.Os Estados Unidos acreditam que eles sejam a própria América, esquecendo-se de uma América do Norte também do México e do Canadá. E a América Central, a América do Sul – não somos América?

Na realidade, o espírito da globalização é uma farsa, não passando da imposição hegemônica dos Estados Unidos e seus aliados ou serviçais. E é esse espírito que fez renascer o vírus da intolerância, das ditaduras, dos fascismos que se espalham pelo mundo a partir dos próprios Estados Unidos que, mesmo com Obama, se dão ao direito de invadir, de sitiar, de ameaçar, de desrespeitar, de criar suas próprias leis, a “pax americana”. E esse vírus, que fortaleceu a direita de Israel nas barbáries do Oriente Médio, contamina outros países, disseminando intolerâncias, novas formas de racismo e declaradas aversões ao estrangeiro. Na América do Sul, a Venezuela e a Bolívia, dizendo-se ir para a esquerda, não tem sido, na verdade, modelos de um fascismo camuflado?

Esse vírus das ditaduras, o vírus fascista já começa a aparecer tentando influenciar as eleições brasileiras. A promessa dos tiranos e dos ditadores está sempre ligada à segurança. Quando mais intranqüilo estiver o povo – e, por isso, é preciso sempre mantê-lo assustado – mais os ditadores se mostram providenciais. Não é à-toa que, por mais denúncias de corrupção se levantem velhos caciques da política brasileira, mais permaneçam, eles, com altos índices de intenção de voto. Na insegurança, o povo espera por brutamontes que lhe dêem falsas sensações de proteção. O mesmo acontece na economia: cria-se o medo da insegurança e boatos de desordem – e eis os ditadores no terreno que mais conhecem, o da força bruta. Há que se enfrentar o vírus antes que o fascismo volte a ser pandemia. Que será infinitamente pior do que a gripe suína. Bom dia.

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