A lagarta e a borboleta

Sanhaço. Foto: Margot Katz de Castro

Viver, vive-se vivendo (1)
Avezinhas canoras, quando aprisionadas, entristecem-se, perdem o canto, morrem. Para não morrer, preciso cantar. E é o canto de minha terra, à minha terra. Desde quando abri os olhos e antes que eles se fechem. Portanto, cantar um tempo. Num lugar onde tudo aconteceu, onde o milagre do tempo se realizou.

Preciso cantar. Pois não sei o que está terminando, mas está. Por mim, não terminaria, mas termina. O pão da vida são migalhas. Mas elas são muitas, tantas que se tornaram banquete, meu pão da vida.

Foi-me repentino o desejo, quase que compulsivo. E, então, mesmo sabendo ser inútil, vi-me remexendo caixotes antigos, baús, velhas caixas de sapatos que se haviam tornado depositárias de memórias. Ou do passado? Talvez, tivesse sido uma incontrolada busca de mim, não sei. Mas era compulsivo o desejo: de rever, de reavaliar, de rebuscar. Eu procurava um antigo pião de rodar no chão, uma bola de meia, gibis de capas coloridas. E, acima de tudo, alguns caderninhos de capa preta onde rabisquei sonhos, esperanças, escritos de adolescência que foram – e pareceu-me, de repente, entender tudo – projetos não realizados de vida.

Primeiro, sentei-me ao piano. E, dos dedos endurecidos no teclado amarelo, as melodias – que, parecendo roucas, escorreram – não me trouxeram respostas, a não ser saudade. Mais do que saudade de mim, entendi ser saudade de um tempo, como se eu fosse o tempo e que ele apenas tivesse existido por ter estado em mim. O piano apenas aumentou-me o desejo, como se eu estivesse com fome e precisasse alimentar-me. E, então, sentei-me para escrever, quando a casa silenciou e, comigo, restaram apenas sons de pássaros voando na tarde quente, de céu embaçado.

Lembrei-me do passarinho que matei. Ele pousara no quintal, ciscando. E eu, com o estilingue de Zezo, meu amiguinho negro, atirei uma pedra em direção à avezinha. Atingi-lhe o peito. E meu coração disparou e, ao mesmo tempo, pareceu paralisar-se. A pedra parecia ter-me atingido também, no coração. E meus olhos se assustaram ao ver o sangue escorrer no chão, o passarinho estrebuchar. Corri para socorrê-lo, nada mais havia a fazer. O passarinho morreu: eu, assassino. Foi a minha primeira visão de morte. E acho que, naquele dia, fiquei adulto. E que, naquela tarde – no pouquinho dos meus seis anos de idade – comecei a envelhecer. Mas ainda não descobrira que a vida são perdas, derrotas, um percurso banal que tem início, meio e fim.

Nasci ao som da II Guerra Mundial. E é esse o desejo que me arrebata compulsivamente: preciso contar. Nada de mim, nada há a contar de quem esteve onde foi plantado. Mas há muito a dizer do tempo em que essa experiência de viver aconteceu. Não sei dizer se – tendo sido ator e personagem ao mesmo tempo – cheguei a ser mais um do que outro, mais ator do que personagem. Na alma, porém, sinto ter sido ora ator, ora personagem, dependendo de ter aceitado a simplicidade da vida ou quando tentei construí-la. Ator constrói, personagem vive. Sinto ter vivido esses papéis. Por e conforme momentos.

De qualquer maneira, porém, se o mundo é o grande teatro, a vida são atos de uma composição sempre inacabada, apesar de tudo o que se faça para lhe dar sentido e fim. Personagem ou ator, basta-me, porém, apenas olhar-me o corpo para ver o tempo impresso na pele. É como se cada dia, dos muitos que vivi, me tivesse deixado sua impressão digital única, nenhuma delas repetida. Cada mancha, cada ruga, cada fio de cabelo branco, cada marca do corpo são registros do tempo e das emoções, histórias que ficaram registradas nas lembranças e no coração.

Sei, em mim, ter-se-me dado a banalidade da lagarta que se tornou borboleta. E nisso, penso eu, está todo o mistério das transfigurações. Não sou o que sou, mas o que fui. No tempo. Com outros. Desde cedo, tive consciência dessa bem-aventurança e, ao mesmo tempo, da determinação dos fados: eu – como qualquer entidade viva — nunca fui apenas eu, nunca existi apenas como individualidade. E, por isso, nunca fui inteiramente livre, mas comprometido. Portanto, cativo sempre. A vida é um cativeiro, viver é estar cativo, ser cativo. De doçuras ou de sofrimentos. Por querer ou pela força. Cativo em ninho, cativo na prisão. Cativo de quem ou de quê aprisionam. E cativo de quê ou de quem libertam. Um ciclo: cativo de quem me aprisionou, cativo de quem me libertou. Não há como pairar acima ou além do que existe. Somos parte. Sempre.

Quando tudo o que me resta é o calor da lareira para poder contar, eis em que acredito: viver é rendição. Viver é sujeitar-se, ser sujeito nas ondulações, nas fúrias dos elementos, conseguindo ser passivo diante de um relâmpago divino iluminando, no instante do tempo vivido, toda a maravilha da criação. Viver não é fazer. Pois tudo já foi feito. Quando se é humano, ser deus cansa. O privilégio da vida humana, entre tantas vidas de viventes, está na contemplação. Que é um ato de religiosidade, de maravilhamento, de rendição ao criador desconhecido. Apenas o sujeito – porque se sujeita, rendendo-se – pode contemplar. É a grande graça.

Começo a sujeitar-me. Rendo-me, cativo. Não sei quem sou, eu sozinho. Mas me sinto privilegiado ao entender: esse que sou é aquele que fui com o outro, num lugar e num tempo. Logo, sou memória. Portanto, muito mais espectador do que ator; mais cativo do que libertador. E, das coisas que vi ou que me contaram, uma imagem me ficou, comovedora: um filho, sugando o seio da mãe, é como um fruto pendurado no galho da árvore que o sustenta. O fruto existe para ser comido enquanto bom e saboroso. Então, quando não saboreado, faz-se pasto para outro chão. Viver é morrer. Mas morrer, apenas morre quem teve vida.

Toda história, pois, é de lagarta que se faz borboleta. E a borboleta nada mais faz do que voar e voar, do que existir para ir em busca de luz e de mel. E, depois, morrer. Viver é, pois, também a aventura de voar. (Ilustração: Araken Martins)

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