Véspera

Viver vive-se vivendo (25)

Sei o que termina. É tudo. E o fim chega. Por mim, não terminaria. Mas termina. E, numa bem-aventurança de sabedoria, eis que me sinto quase feliz ao aceitar a finitude, mesmo não a entendendo. Compreendo-a no coração ou no fundo da alma. Deslumbro-me com essa percepção: uma chegada do fim, uma retomada. É o círculo do eterno retorno. Tem que ser. Mas, se não for, nada fará diferença. Vi a minha flor preferida morrer no Inverno. Sinto que ela renascerá na Primavera. Há, pois, uma Primavera. Se há, haverá também em mim.

Bau seculo XIXFoi-me repentino o desejo, quase que compulsivo. E, então, mesmo sabendo ser inútil, vi-me remexendo caixotes antigos, baús, velhas caixas de sapatos que se haviam tornado depositárias de memórias. Ou do passado? Talvez, tivesse sido uma incontrolada busca de mim, não sei. Mas era compulsivo o desejo: de rever, de reavaliar, de rebuscar. Eu procurava um antigo pião de rodar no chão, uma bola de meia, gibis de capas coloridas. E, acima de tudo, alguns caderninhos de capa preta onde rabisquei sonhos, esperanças, escritos de adolescência que foram – e pareceu-me entender tudo naquele momento – projetos não realizados de vida.

Primeiro, sentei-me ao piano. E, dos dedos endurecidos no teclado amarelo, as melodias — que, como se estivessem roucas, foram escorrendo — não me trouxeram respostas, a não ser saudade. Mais do que saudade de mim, entendi ser saudade de um tempo, como se eu fosse o tempo e o tempo apenas tivesse existido por ter estado em mim. O piano, pois, apenas me aumentou o desejo, como se eu estivesse com fome e precisasse alimentar-me. E, então, sentei-me para escrever, quando a casa ficou silenciosa e, comigo, ficaram apenas sons de pássaros voando na tarde quente, de céu embaçado.

Lembrei-me do passarinho que matei. Já contei. Mas isso me incomoda. Ele pousara no quintal, ciscando. E eu, com o estilingue de Zezinho, meu amiguinho negro, atirei uma pedra em direção à avezinha. Atingi-lhe o peito. E meu coração disparou e, ao mesmo tempo, pareceu paralisar-se. A pedra parecia ter-me atingido o peito também. E meus olhos se assustaram ao ver o sangue escorrer no chão, o passarinho estrebuchar. O passarinho morreu: eu, assassino, repito e insisto. Foi a minha primeira visão de morte. E acho que, naquele dia, fiquei adulto. E, naquela tarde – já aos meus seis anos de idade – comecei a envelhecer. Mas ainda não sabia que a vida são perdas, derrotas, um percurso banal que tem início, meio e fim.

E nasci ao som da II Guerra Mundial, repito, repito-me. Pois é um desejo determinante, baliza de minha vida, algo que me arrebata compulsivamente: preciso contar. Ora, nada tenho de biográfico, de mim para mim, de minha história pessoal. Mas tenho uma longa história diante da vida, como ator, espectador e expectador. De mim, nada há, na verdade, a dizer, alguém i plantado num lugar, na Piracicaba de minha vida. Mas há muito a dizer do tempo em que essa experiência de viver aconteceu. Não sei se – tendo sido ator e personagem ao mesmo tempo – cheguei a ser mais um do que outro, mais ator do que personagem. Na alma, porém, sei ter sido ora ator, ora personagem, dependendo de ter aceitado a simplicidade da vida ou quando tentei construí-la. Ator constrói, personagem vive. Sinto ter vivido esses papéis. Por e conforme momentos.

De qualquer maneira, porém, se o mundo é o grande teatro, a vida foram atos de uma composição sempre inacabada, apesar de tudo o que tentei fazer para lhe dar sentido e fim. Personagem ou ator, basta-me, porém, apenas olhar-me o corpo para ver o tempo impresso na pele. É como se cada dia, dos muitos que vivi, me tivesse deixado sua impressão digital única, nenhuma delas repetida. Cada mancha, cada ruga, cada fio de cabelo branco, cada marca do corpo é o registro do tempo e das emoções, histórias que ficaram registradas nas lembranças e no coração.

Tive mulheres, companheiras minhas. E cada uma – vendo-me pronto e preparado para assumir o meu papel de simples contador de histórias – repetiu-me o que a primeira delas acreditou pudesse ser inscrito na lápide de meu túmulo: “você não passou vontade.” Mas elas estiveram enganadas como se enganaram todos: eu apenas tive vontade, todas as vontades. Vivi por toda minha vontade de viver. De beber tudo, de tudo comer, de uma insaciável vontade de engolir e digerir todas as maravilhas que me deslumbraram e que me seduziram. Se Beatriz dissesse que fui capaz de ter todas as paixões, talvez ela estivesse mais próxima de entender o que estou querendo contar.

Sei ter-se-me dado em mim a banalidade da lagarta que se tornou borboleta. E nisso, penso eu, está todo o mistério das transfigurações. Não sou o que sou, mas o que fui. Sou memória de mim. Essa história, pois, que estou querendo contar nada mais é do que um vôo de borboleta no encontro do mel de cada dia, ao longo de uma existência tão passageira e banal. Ou, mais humanamente, a aventura de encontrar, a cada dia, o pão da vida. Houve e tem havido um sonho de viver, o mundo que desejei, o ser e o existir a partir de um impulso estético. Mais do que bom, viver é bonito – eis no que acreditei. E do que, ainda, vivo. (Ilustração: Araken Martins)

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