Corruptos é brega.

A banalização da malandragem teve um momento referencial: quando o atleta Gerson, na televisão, fez o anúncio do “é preciso levar vantagem sempre”. Aquilo de tal forma o estigmatizou que, ainda hoje e injustamente, fala-se na “Lei de Gerson”, uma falsa lei, embora a mais bem cumprida de todos.

A corrupção – antes voltada especialmente à área política, um estigma – floresceu de tal forma que abrangeu todos os ambientes, instituições, poderes constituídos, organizações. Consolidou-se o “jeitinho brasileiro”, o “quebra-galho”, o apadrinhamento, fortalecendo-se o nepotismo de forma tão deslavada que se tornou como que um dever dos que sobem ao topo de alguma escala levar, consigo, parentes e amigos. O Brasil ganhou ainda mais a fama de “não ser um país sério”, “um pays n´est pás serieux”, como, de nós, teria ido o herói Charles de Gaulle, um dos pais da França do pós-guerra. E isso foi ruim, começou a tornar-se péssimo quando as empresas multi e transnacionais passaram a recusar-se a investir em país com tão altos custos de corrupção e de malandragem. Ser corrupto, aos olhos do mundo, voltou a ser ruim. Corrupção é mortal.

O paradoxal está nesse quase milagre do reciclamento e da renovação das sociedades humanas: quando tudo parece perdido, surgem esperanças; quando tudo parece destruído, surgem construções; quando o caos se anuncia, surgem caminhos. O paradoxal, agora, é que, quanto mais o Brasil se vê mergulhado na corrupção, mais a figura do corrupto começa a ser desprezada. Se, até recentemente, o corrupto se escondia por trás de figuras ou de eufemismos como os de competente, esperto, preparado, jeitoso – agora, já se exige que o homem seja, acima de tudo, honesto. A decência começa a ser valor recuperado pelas grandes empresas, pelo comercio, pela indústria, até mesmo por partidos políticos. Demorou mas chegou: quem pode confiar num corrupto? Que empresa contrataria, por mais competente fosse, uma pessoa reconhecidamente corrupta, até mesmo com doutorados e mestrados? O corrupto começa a aficar fora de moda. E, quando sai de moda, não há mais salvação no mundo que continua sendo o do espetáculo.

Quem não tem olhos de ver e ouvidos de enxergar não está vendo e nem ouvindo: há ventos diferentes soprando junto aos jovens, que, por si mesmos, começam a evitar malandragens, jeitinhos, espertezas ilícitas. Ser corrupto tornou-se brega, de mau gosto, comprometedor como são comprometedoras figuras imorais e publicamente escandalosas. A moda dos princípios e da moralidade segura está retornando, como se fosse “fashion”, um desfile mais nobre: se o corrupto é brega, a pessoa decente é respeitada, é requisitada, é admirada, é cortejada, é desejada, é contratada.

Quem apostou na vitória da corrupção está começando a perder. A mudança começa a chegar mais rapidamente do que parece. Basta abrir os olhos. E os ouvidos.

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