(In)dependência

Quando as datas cívicas de uma nação se tornam secundárias, a alma se perde. Basta pensar, como referência, num filho cujos pais se esqueceram da data de seu aniversário. Ou não deram qualquer importância. Há dor e desânimo. O mesmo ocorre com as nações, quando os feitos, as conquistas, os símbolos, todo o ritualismo e a liturgia da vida nacional desaparecem.

Quando, mesmo, se deu a descoberta do Brasil? E a independência diante da sujeição a Portugal? E a República, sua proclamação, tida e havida, ainda, como um simples golpe engendrado por militares, fazendeiros, intelectuais? A História do Brasil tem sido contada ora como invencionice, ora como anedota. É como se o caráter nacional fosse moldado por insignificâncias, estas, sim, cada vez mais atiçadoras do interesse público.

Apenas povos realmente inconscientes ou intelectualmente subdesenvolvidos não cultuam e cultivam sua história, tradições, significantes culturais. Sem raízes ou com elas perdidas, são povos facilmente submetidos a todas as formas de invasões físicas ou espirituais, culturais e econômicas. Quem recusa sua própria história – ou não sabe dela – acaba adotando a história alheira. Por falta de alternativa ou por imposição.

Uma das especialidades das ditaduras está em buscar traços de união do povo oprimido. Criam-se histórias oficiais e elas são impostas com fortes cores nacionalistas. Foi assim, no Brasil, com Getúlio Vargas, com os governos da ditadura militar. O exemplo adotado foi o do modelo fascista e nazista. Até o futebol se transformou em questão de orgulho nacional, de ordem cívica fundamental. Em 1970, o ditador Garrastazu Médici corria pelos espaços do Palácio da Alvorada embrulhado numa bandeira nacional para celebrar a vitória do futebol brasileiro na Copa do Mundo. Até a bola se tornou questão de segurança nacional.

Houve,no entanto, momentos de civismo verdadeiro, de orgulho honesto e alentador, especialmente no governo de Juscelino Kubitschek, que, após a semeadura de Getúlio Vargas na área industrial, deu a grande arrancada para o desenvolvimento. A sua bandeira – “50 anos em 5 anos” – arrebatou a nação. E o povo brasileiro descobriu a sua capacidade criadora, a sua força moral, as virtudes nacionais. O golpe militar amordaçou a consciência nacional. E o orgulho de uma nova brasilidade se transmudou para a vergonha da submissão.

O 7 de Setembro – data nacional da nossa libertação do domínio português – chegou a ser celebrado, muitas vezes, com festividades massivas. Na verdade, o entusiasmo sempre foi tênue, como se fosse uma história mal contada. De qualquer maneira, porém, tornávamo-nos uma nação com autonomia própria, ainda que sob leis imperiais. Hoje, podemos dizer que o Brasil é,juridicamente, uma nação independente. Mas com restrições. Pois – num mundo onde imperam as grandes corporações transnacionais e com valores econômicos preponderando sobre os morais e espirituais – o mais verdadeiro é falar-se em interdependência. Dependemos, as nações, umas das outras. Algumas mais,outras menos. Mas a interdependência é uma realidade indesmentível. Nesse cenário, o fundamental está na manutenção de nossa soberania no teatro internacional.

A reflexão que se faz, no entanto, necessária é quanto à democracia brasileira. Ela existe realmente ou é instrumento para a liberdade econômica especialmente? Não estaríamos, hoje, na dependência cada vez maior de complexos econômico-financeiros que funcionam como tentáculos? Como pode uma nação se dizer independente se a educação se tornou doença quase incurável e a superioridade de pequenos grupos sociais sobre a imensa maioria da população é tirânica? Num mundo interdependente, a interdependência do Brasil corre o risco de se tornar dependência geopolítica. Apesar das grandes conquistas que fizemos nestes últimos 10 anos, na retomada de um orgulho nacional que estava adormecido.

Pelo menos, deixamos de ser o país do futuro para já enxergarmos o futuro do país.

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