Reflexões no meu outono (XI)

PeixeAinda permanece viva a discussão entre forma e conteúdo. É questão apaixonante e, obviamente, não cabe, neste espaço, digressões a respeito disso. Mas uma das perguntas – que ainda se fazem – instiga: é mais importante a forma ou o conteúdo, quando se tenta separá-los? Em resumo rápido: é mais importante aquilo que se mostra (a forma) ou aquilo que nela existe (conteúdo)?

Volto a refletir sobre isso a partir da escultura do peixe que se erigiu à entrada principal da cidade, nas proximidades da ESALQ. Sob o meu ponto de vista estético, a forma é grotesca. Mas é apreciação pessoal. Apenas isso. No entanto, aquela forma para mim grotesca é a revelação de um símbolo que acompanha Piracicaba desde o seu próprio nome: o peixe. Colocado à entrada da cidade, estamos revelando ao mundo que o peixe é elemento vital da cidade, “o lugar onde o peixe para.” Deve tratar-se, pois, como que uma profissão de fé: somos pescadores, o peixe é nosso símbolo, nossa história. E, portanto, nosso destino. Mas o que significa isso? Será que conseguimos avaliar em profundidade o verdadeiro significado desse símbolo, até aqui apenas tido como fruto do rio, alimento, objeto de pescaria?

Por si mesmo, o nome Piracicaba é uma consagração. Para os indígenas que nos antecederam, o Salto – onde o peixe para – era uma rede de recolher os cardumes, bênção de seus deuses. Se o peixe para aqui, se os indígenas reverenciaram o local por entenderem esse privilégio, o homem branco povoador manteve-o, dando-lhe a religiosidade católica na histórica escolha do oráculo, Nossa Senhora dos Prazeres e Santo Antônio. O peixe estava, pois, também consagrado pela religião dos brancos, a cristã, para o qual o simbolismo dele é vital.

Quando se mudou o nome de Piracicaba para Vila Nova da Constituição, o imortal Prudente de Moraes e seus companheiros entenderam – mesmo sendo positivistas – que houvera uma dessacralização da cidade. A luta para retomar o nome inicial foi hercúlea. Mas voltamos a ser Piracicaba, terra abençoada a partir de seu próprio nome e do simbolismo písceo. Essa nossa vinculação ao peixe é, pois, visceral, de nossas raízes. E aquela escultura – por grotesca que, esteticamente, pareça a alguns e a mim também – talvez não tenha sido entendida, conscientemente, em seu significado por seus autores. Pois mais do que símbolo de um peixe é um símbolo mítico.

O peixe tem, na água, o seu símbolo vital. Ele não existiria aqui não houvesse o rio. Ao mesmo tempo, é, paradoxalmente, símbolo de fecundidade e de morte, sintetizando, pois, a caminhada dos seres vivos: nascer e morrer. Para quase todos os povos, o peixe – como símbolo da vida e de fecundidade – é talismã difundido em todo o mundo. No Egito, algumas espécies, desde os primórdios, eram tidas como sagradas. E é um dos símbolos secretos mais antigos de Cristo, como referência, inicialmente, ao batismo pela água. Na linguagem grega, ichthys= peixe, foi interpretada como acróstico das palavras “Iesous Christos Theou (H)yios Soter, ou seja, Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.

Os primeiros cristãos batizados consideravam-se peixes renascidos pelas águas do batismo. E – ainda para o cristianismo – o peixe, como corporificação de Cristo, pode ser símbolo do alimento espiritual, especialmente em representações com o pão, que é símbolo da Eucaristia. Toda a riqueza simbólica em relação ao peixe está, pois, vinculada à espiritualidade. Por isso, certamente deve estar nesse misticismo o fato de Piracicaba sempre ter sido considerada uma cidade especial, voltado ao espírito, à cultura, às artes, como vocação de vida e de existência. Nossa história – podemos afirmá-lo, portanto – nasce e se realiza sob o signo mítico do peixe.

Não pode e nem deve, pois, ser gratuita ou superficial – pelo menos é o que penso – a escultura do peixe estar à entrada da cidade, em saudação ao visitante ou em acolhimento caloroso aos que retornam. Aquela escultura deveria ser entendida como uma profissão de fé: Piracicaba, o lugar onde o peixe para, foi abençoada para ser berço do bem e do belo. Se assim não for, é preciso lembrar que o simbolismo do peixe também remete à morte. Eis, pois, a nossa questão: ser ou não ser herdeiros da bênção através do peixe.

Aquela escultura vale mais pela forma ou pelo conteúdo?

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