Uma negra de alma branca.

Os preconceitos sempre existiram, ainda que mascarados no Brasil. Basta lembrar, em Piracicaba, a separação entre “pretos e brancos” até nos passeios do centro da cidade. Não apenas preconceitos raciais, mas também sociais. Os mais antigos se lembram: moças das famílias mais ricas faziam o “footing” na chamada “calçadinha de ouro”, na Praça José Bonifácio (entre bancos Itaú e Bradesco) e rua São José, até a altura do então Cine Broadway. Depois, era o “quadrar jardim”: moças mais humildes, “quadravam” nos círculos centrais; as estudantes, no último círculo, andando umas no sentido horário, outras no anti-horário, enquanto os rapazes as viam passar, “flertando”. Esses eram os “brancos”

E os “pretos” – como eram chamados os da raça negra – ficam apartados, no quadrilátero das ruas São José, Governador, Moraes Barros e Praça José Bonifácio (no quarteirão da extinta Brasserie”. E dizia-se não haver preconceito. E ainda se falava com ternura e admiração do livro “A Cabana do Pai Tomaz”, da Harriet Bowe, que deu até novela, com Sérgio Cardoso pintando o rosto de preto. E o preconceito era explícito, direto quando,querendo referir-se generosamente alguém “de cor”, dizia-se: “é um(a) preto(a) de alma branca.”

Parece que, agora, a hora da verdade chegou, tendo como protagonista a secretária de Estado dos EUA, Condoleeza Rice, mulher e negra. Poucas pessoas, no governo dos Estados Unidos, têm revelado um sentimento tão profundo da “realpolitik”, do cinismo na política internacional e da crueldade em relação a valores da humanidade. Às vésperas do Natal, Condoleeza Rice disse que mortes, violências, vítimas e despesas monumentais na invasão do Iraque “são um investimento que vale a pena.” Matar e morrer por uma política desastrada, pouco se importar com vítimas e inocentes civis, incluindo crianças, isso é “investimento” para a secretária do governo Busch.

Agora, sem qualquer preconceito, mas com realismo honesto, pode-se dizer, até como vingança histórica, que houve uma inversão na Cabana do Pai Tomaz. E realmente há uma negra com alma branca, alma branca como a de Hitler, alma branca como a de Pinochet, alma branca como a de Stalin ou de Mussolini e alma branca também como a de George W.Bush: Condoleeza Rice é a negra com a maldade dos tiranos de alma branca.

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