Cheiros de lar

Desgraçadamente para mim – num momento da vida em que, enfim, mergulho no mundo dos contadores de histórias – sou, ainda, tomado de indignação. Por mais tente e me esforce, não consigo libertar-me, por inteiro, do mundo das mediocridades, de realidades fictícias que desumanizam o ser humano. A missão de escrever não passa de doída penitência. Tal e qual a do músico, do artista plástico, do compositor, do poeta, do louco. Pois nada se cria para si mesmo: há que se entregar ao outro. E, então, rompe-se o recolhimento para ir-se em busca de participação comunitária. Deve ser isso, sei lá…

Já aprendi, porém, a reagir. E retorno ao universo da reflexão, da memória, da contemplação, certamente o meu último compromisso com e na vida. E entendo: cada um de nós tem a sua “madleine”, a que levou Proust à sua busca do   tempo perdido. Talvez, tenhamos muitas “madeleines”, remetendo-nos à única realidade da qual não conseguimos fugir: o passado. Só ele existe, volto a insistir. É ele que permanece apesar da invenção do relógio, que nos levou a inventar a medição do tempo.

De repente, mal ainda despontara alguma luz diurna, fui despertado por um cheiro, por um perfume vivificante, vindo de algum lar vizinho. Era o de café coado… E foi, aquele cheiro de lar, a minha “Madeleine” daquele momento mágico… De imediato, lembrei-me de um jovem casal conhecido que, orgulhosamente, dizia usar apenas um bojão de gás por ano. Apenas um. Pois toda alimentação era feita fora de casa. Quais, então, os cheiros do que eles chamavam apenas de casa?

Lares tinham cheiros. Cheiro de café coado pela manhã, inebriante, quase embriagador. Cheiro de cebola, de alho, de feijão na panela, de carne temperada. Cheiro de cera passada no assoalho; de lustra-móveis, de terra molhada; cheiros de fumaça, de tabaco, de vinho, de sexo, de suor humano, de macho e de fêmea; cheiro de pastas de dente; de bumbunzinho de nenê; de talco; perfumes de flor em vasos, em canteiros, nas janelas…

Perfumes nos pulmões acompanham-nos pela vida toda.

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