Ripolianas (6)

Eu Sei Tudo Ano XXXVIII #453, Revistas Antigas – assuntos diversos

Há algum tempo, escrevi sobre a “filosofia do eu sei“. E foi com o Rípoli que aprendi a importância – nas lutas políticas – de se enfrentar adversário sempre aguardando ser apunhalado pelas costas. Há uma diplomacia do “eu sei”, um certo saber a respeito do outro, um pouco de saber das coisas.

Certa feita, foi Romeu Ítalo Rípoli quem nos deu – a jornalistas e políticos, também a pessoas comuns – uma saborosa lição sobre a força, o poder dessa diplomacia do “eu sei”, aliás, hipócrita como qualquer diplomacia. Mas sábia. Convenhamos: o que é, a civilização, senão a forma elegante de viver hipocrisias, evitando tragédias maiores e carnificinas permanentes?

Um dos exemplos: em vez de roubar-se a mulher alheia – como se fazia nas cavernas – o homem civilizado criou a lei da conquista. Ao haver ofendidos, tentou-se substituir assassínios enlouquecidos – transformados em coisa de bárbaros – por duelos civilizados ou atitudes mais gentis. Arthur fingiu não saber da paixão de Guinevère por Lancelot. Ninguém morreu, Lancelot perdeu. Nas cortes, tudo se resolvia entre muros.

Voltemos ao Rípoli, à sua diplomacia do “eu sei…” Em 1976 – o XV já consagrado como vice-campeão do futebol paulista – Rípoli, com popularidade incontestável, aceitou ser candidato a Prefeito de Piracicaba. Chegar à Prefeitura era-lhe o grande sonho, irrealizado. Pesquisas eleitorais davam-no como imbatível. Penso que, se ele tivesse ficado em sua casa – calado e sem cometer as mais incríveis sandices políticas – talvez, tivesse conseguido, sei lá. Rípoli, como sempre, falou demais. E perdeu.

Mas não é esse o assunto. A luta política era intensa e Rípoli, um homem controvertido, polêmico, uma candidatura complicada. A imprensa estava dividida, mas as rádios eram-lhe claramente hostis, fosse ele candidato ou não. A paixão pelo XV despertava reações radicais. E uma das emissoras decidiu promover um debate público com os candidatos, começando por Romeu Ítalo Rípoli. Foi na “Sociedade Italiana”.

E a promessa de alguns debatedores era a de um massacre, de linchamento moral, de tiro ao alvo, misturando política com vida privada, um salve-se-quem puder. Haveria uma armadilha política e um momento de vingança. Havia sede de sangue. O povo lotou as dependências do clube, lembrando os romanos na arena, torcendo mais para as feras do que para o gladiador. Ou público de tourada, à espera de sangue, do touro ou do toureador.

Estranhamente, Rípoli estava calmo, como se indiferente ao que lhe fosse perguntado. À espera de ser chamado, ficou enrolando o cigarrinho de palha. Ao ir ao palco, cumprimentou cada um dos debatedores. Mas de maneira estranha. Abraçava um por um, falava-lhes coisas no ouvido. E eles, contrafeitos, voltavam a se sentar. Ninguém entendia. As feras, a cada cochicho do Rípoli, ficavam dóceis feito cordeiros. Tão dóceis que fizeram perguntas como se dirigidas à Branca de Neve. Rípoli usara a diplomacia do “eu sei…” Cochichando, dava o recado: “Eu também sei de você…” E contava, no ouvido, o que ele sabia. Rípoli foi um especialista na arte dessa diplomacia do “eu sei…” Ainda que hipócrita e apesar dos tolos – ela consegue, ainda, impedir o retorno à lei das selvas.

A série denominada Ripolianas é republicada para constar dos arquivos de A Provincia.com.

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