Tipos Inesquecíveis: A Vida Sexual do Mustang

(Proibida para menores)

Começo dos anos 70.

Durante a primeira visita do Himalaia Mustang Shangrilá a Piracicaba, ele nos proporcionou várias situações inusitadas, as quais, como eu gosto de escrever parafraseando o escritor Hermilo Borba Filho, estavam esquecidas “à margem das nossas lembranças”. Vamos a algumas delas.

Três solteirões incorrigíveis, eu, o Michel Audi e o Cesário Pavanelli, que já partiram desta para a melhor, ou para pior, como diria o Michel, espírita fanático e conhecedor profundo das coisas do além, costumávamos visitar, em nossas andanças noturnas, praticamente todas as casas de tolerância, ou rendez-vous, como eram conhecidas, que existiam na cidade e, porque não dizer, um pouco mais além. Um além pelo jeito mais salutar e edificante do que agora devem estar nossos companheiros. Hoje em dia, praticamente em todas as casas, se toleram as coisas que fazíamos às escondidas, com profundo respeito pelos sagrados lares de então. Que ninguém nos condene, porquNós e o Jumboe, ao contrário de muita gente, optávamos pelo respeito às donzelas casadoiras da cidade.

Alguns dias após nosso primeiro encontro, o Mustang, que chamava a todos de mister, chegou a mim, como quem não quer nada, e pediu que o levasse à Ripolândia, a zona de meretrício, que existia na cidade. Outro dia, um jovem universitário me perguntou o que era isso. Expliquei ao Mustang que a zona era suja, nojenta, esgoto a céu aberto e poucas mulheres bonitas, mas ele quis ir assim mesmo. Fomos com o meu fusca, demos uma volta por lá, o Mustang quis descer do carro, caminhou pelas poucas ruas, entrou em algumas casas e voltamos, com ele assustado, dizendo que a sujeira era igual à da Índia, que a Globo há pouco não mostrou. Alguns dias depois, estava eu na redação de O Diário, quando ouvimos o ranger de engrenagens do câmbio de um carro e um linotipista apareceu correndo ainda a tempo de ver o Mustang saindo com o seu Gordini. Ele nos havia dito que não se conformava, em plenos anos 70, em ver que nós ainda usávamos carros com o câmbios não automáticos, ao contrário da maioria dos países estrangeiros. Justificava-se, portanto, a sua barbeiragem. Não preciso dizer aonde o Mustang foi. Para o desespero do linotipista, os empréstimos do pobre do Gordini passaram a se repetir, frequentemente. Em uma das noites, resolvemos ir conferir. Chegamos à Ripolândia e o Mustang já era figurinha fácil. A maioria das donas das casas já o conhecia e uma delas mostrou onde ele estava. Ficamos na expectativa da sua saída e, de repente, ele, com seu andar estranho e característico, apareceu cambaleando e se dirigiu ao lado, entrando em um bar, de onde saiu gargarejando e cuspindo a pinga, que estava no copo.

Nada do que o exposto nos assustou, porque o Mustang viveu, no exterior, principalmente na Índia e dizia ser também amigo do Sukarno, o que deve ter sido verdade pelos detalhes íntimos das coisas que nos contava, envolvendo encontros e bacanais com muitas das então conhecidas e sensuais estrelas de Hollywood, que apareciam de tão longe não só pelos seus belos olhos do então presidente da Indonésia. Contava-nos, também, das “sessões de amor” que aconteciam naquelas plagas, algumas delas muito estranhas, como de se amar em uma cama de tela, com galos saltitando em baixo, tentando bicar o romântico casal, embalado por um afrodisíaco, suco extraído do rabo de um dragão. Pela foto que mostrou, o tal dragão era uma espécie de jacaré metido a filhote de dinossauro. Só mesmo o Mustang para enfrentar essas paradas!

Íamos à casa da Carmem, que existe com outro nome até hoje, na estrada para o bairro de Tupi, que era muito boa, limpa, mulheres bonitas e atenciosas. Sabendo que eu era de O Diário, passamos a ser muito melhor tratados, em parte, talvez sem que o Cecílio soubesse, graças ao medo que a sua pena moralmente ferina despertava. Como eu andava quase sempre com minha máquina fotográfica, tornei-me quase que um fotógrafo da casa, tendo acesso à maioria das mulheres, sob as bênçãos e apresentações da dona Carmem. Modestamente, devo argumentar que fazia as fotos ousadas, mas com capricho e bom gosto, o que aumentou o número de interessadas em documentar seus dotes físicos, para o futuro.

Frequentando o local, acabei quase que a me apaixonar por uma das garotas da casa, o que me fazia voltar, com frequência, à sua procura. Felizmente, naquela época nem imaginávamos que um dia apareceria essa praga da AIDS. Não posso deixar de contar que os encontros eram pagos e, certa noite, lá chegamos e eu entusiasmado à procura da Renata. Disseram que ela nem iria parecer, pois estava com um milionário de São Paulo, que viera com seu belo carrão vermelho importado. Não havia como concorrer. Fiquei angustiado e disse brincando: “Vou tirá-la do quarto. Pago cinquenta reais para ela!”. Cinqüenta reais, naquela época era uma fortuna. Um colega de redação, que agora chamo de Mr. X, havia ido junto conosco e, também brincando, falou: “Puxa vida! Por cinqüenta reais eu dou para você!”. Rimos e ficou por isso. Eu voltei para a redação, manifestando estar inconformado. Passados alguns dias, o Mustang, cheio de rodeios, finalmente chega e me pergunta baixinho: Mister Cerinha, será que Mister X dá mesmo por cinqüenta cruzeiros?”. Não é que o Mustang ficou interessado.

Tal passeio deu o que falar. O Mustang não se conformava com o meu interesse pela moça e eu, brincando, falei que estava tão apaixonado por ela que iria pedí-la em casamento. O então padre José Maria, da Catedral, também trabalhava em O Diário e o Mustang foi até ele, pedindo que me convencesse do contrário. O padre Zé, que era um gozador e sabia do assunto, falou que tudo já estava certo e que ele mesmo iria realizar o meu casamento, ao que o Mustang declarou: “Mas padre Zé, ela é uma puta!”. Não é que o libertino do Mustang tinha um puta de um preconceito?

Outra coisa que o Mustang também não se conformava era com o uso de tênis fora do local de exercícios físicos, moda então em começo, na época. O Mustang via um sujeito esquisito circulando de tênis, pelas dependências de O Diário, e estranhava. E dizia que ele devia ser bandido, porque usava tênis e bandido usa tênis. Acabou acertando. Era mesmo um sujeito que o Cecílio tentava reabilitar. Hoje, acho que ele já se curou dessa mania. Quando íamos a uma lanchonete e ele via uma garota bonita de tênis, se transfigurava, dizendo que uma moça bonita não podia usar tênis, porque tênis deixava os pés fedidos.

Realizou tantas palestras pela cidade, gratuitamente, contando suas façanhas pelo mundo e apresentando as suas belíssimas fotos, que acabou se apaixonando, também perdidamente, por uma estudante. E demonstrou o seu ciúme terrível, a ponto de contratar o atual facilitador de negócios Apolonito Climácio, que trabalhava em O Diário, como o seu detetive particular, a fim de seguir a estudante. O ator Peter Sellers deve ter se inspirado no Apolonito, quando criou o seu inspetor Clouseau. A garota morava no meio de um quarteirão e o Apolonito, tão discreto à sua maneira ficou, na esquina, buraqueando por detrás de uma árvore, que a sua estranha presença despertou a curiosidade dos funcionários de uma casa comercial, que chamaram a polícia. Foi o João Maffeis quem, de O Diário, confirmou que o Apolonito era, de fato, um bom sujeito, detetive particular do Mustang e limpou a sua barra.

Mustang acabou indo a Campinas, a fim de mostrar seus trabalhos fotográficos e também contar suas façanhas. Lá, também aprontou, participando como figurante de uma pornochanchada dirigida por Roberto Mauro – “O Incrível Seguro de Castidade”- juntamente com outro piracicabano, Otávio Righetto. Envolveu-se em uma bacanal, da qual participavam mulheres da sociedade e teve de fugir do país.

Só soubemos dele, algum tempo depois, através de uma curiosa carta, na qual contava suas amarguras que, curiosamente, nos causaram muito riso. Estava em um envelope gigante, contendo os nomes e endereços de inúmeros destinatários, até do prefeito Cássio Padovani e inclusive o meu, no Banespa, talvez com medo que não chegasse ao seu destino. Só podia ser dele.

E não é que, dez anos mais tarde, ele voltou mais louco do que antes e nós, mais loucos do que ele, o recebemos de volta?

 

 

 

 

 

As fotos em tela, como escrevia o saudoso Geraldo Nunes,  mostram Mr. Michel e Mr. Mustang, fotografados por Mr. Cerinha, dentro do Fusca, e as dependências do aeroporto de Viracopos, para ver o gigante avião Jumbo, da Lufthansa. Não conseguimos  nem ficar perto dele. Valeu muito mais a pena a visita a outro Viracopos.

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