História que eu não gostaria de contar (3)

GOLPEMovimentação da Igreja

O Bispo Ernesto de Paula renunciou ao comando da Igreja Católica, atitude até hoje mal esclarecida. Em Roma, acontecia a surpreendente abertura do Concílio Vaticano II, pelo Papa João XVIII. Começava o que se chamou “Primavera da Igreja”, com ventos novos soprando. Em Piracicaba, para o posto de D.Ernesto de Paula, foi indicado um antigo padre coadjutor da velha Matriz de Santo Antônio, de nome Aníger Francisco Maria Melilo. Em sua anterior passagem por Piracicaba, o padre Melilo se revelara um conservador, de moralismos férreos. No entanto, mal assumiu a condição de Bispo Diocesano, o agora D.Aníger Melilo causou impacto na sociedade piracicabana ao revelar uma outra faceta: era um progressista alinhado ao espírito do Vaticano II, com visão social diferenciada.

D. Aníger renovou o clero piracicabano trazendo, para a Diocese, jovens padres, recém saídos dos seminários, que estavam inflamados por uma evangelização não apenas de pessoas, mas da ordem social. Eles vinham com ideias novas, com visões mais arejadas. Eram, alguns deles: os padres José Maria de Almeida, José Maria Teixeira, Otto Dana, Antônio Rosa, Jamil Abib, Quirino. Era tal a surpresa que as esquerdas acreditaram – especialmente com as linhas traçadas pelo Vaticano II – que se tornaria possível o desejo do “compromisso histórico” – a união da democracia cristã com o partido comunista – que ocorrera na Itália e fora preconizado por Norberto Bobbio.

Na Folha de Piracicaba, eu mesmo – ainda com ideias materialistas – me perguntava: por que não? Na realidade, D. Aníger e seus jovens padres eram mais lúcidos e ousados do que os partidos políticos, que não tinham definições ideológicas. Foi com D. Aníger que o PDC (Partido Democrata Cristão) tomou vulto em Piracicaba, com a presença constante de suas maiores lideranças e então jovens deputados: Franco Montoro, Paulo de Tarso, Chopin Tavares de Lima, Plínio de Arruda Sampaio. E, como líder de todos, o Governador Carlos Alberto de Carvalho Pinto.

A democracia cristã tinha sido preconizada por Santo Tomás de Aquino e, nos tempos modernos, tornara-se experiência difícil nos países que tentaram criá-la. Era como se propusesse uma nova forma de socialismo, o socialismo cristão e, portanto, em oposição ao socialismo materialista. Seria quase impossível ocorrer o “compromisso histórico”, como se tentara na Itália. Mas o ardor dos jovens piracicabanos – que se uniam na “Folha de Piracicaba” – fez com que acreditássemos na utopia. E havia, para nós, uma liderança especial: o comunista João Chiarini. Ora, se ele se unia aos democratas cristão, por que não deveríamos fazê-lo também? O fato foi que a “Folha de Piracicaba” passou a ser o abrigo e o centro difusor também dessa linha ideológica. Franco Montoro visitava-nos com freqüência e tive a honra de hospedá-lo em minha casa, ainda quando recém casado e, ele, apenas deputado estadual, mas combativo, confiável, idealista.

Com D.Aníger Melilo e seus jovens padres, a Igreja Católica se transformou em Piracicaba, atraindo a juventude, operários, intelectuais. O jovem Padre Otto Dana viveu a experiência de “padre-operário”, antes de se tornar o admirado doutor em Sociologia. E a marca dessa “nova Igreja” aconteceu de maneira polêmica quando o padre Benedito Gil – jovem culto e ousado – passou a escrever artigos contra as indústrias Dedini, denunciando o que, para ele, pareciam maus tratos aos trabalhadores, especialmente na falta de refeitórios adequados. A polêmica criou animosidades, com os Dedini respondendo, pela imprensa, com artigos de um de seus líderes, Lázaro Pinto Sampaio. A cidade ficou surpresa e magnetizada. Onde já se viu um padre desafiar os poderosos? D. Aníger foi pressionado para silenciar o Padre Gil, mas repudiou qualquer insinuação a respeito.

Se, por um lado, houve entusiasmo e aplausos à linha pastoral do novo bispo, atritos e oposições – dos conservadores e das elites – acirraram-se. E iriam piorar quando do golpe militar. Com D. Aníger, a igreja doméstica de Piracicaba recusava-se a apoiar a ditadura, afirmando-se firmemente em defesa especialmente dos direitos das pessoas. E, logo ao início do golpe, sua presença foi marcante em defesa dos estudantes, acolhendo-os na cripta da Catedral e – juntamente com o pastor metodista Angelo Brianesi, numa comunhão ecumênica inédita – colocando-se à frente da tropa militar, com seus tanques de guerra e cães.

Euforia com o golpe

É possível um jovem jornalista, então já com 23 anos, fazer ácidas críticas aos proprietários de um jornal e permanecer no cargo? Agora, certamente não. Mas foi possível. Logo na primeira semana da nova administração de Luciano Guidotti, voltei-me contra a furiosa perseguição que ele começou a fazer a funcionários que se não tinham alinhado à sua candidatura. Ele os transferia para localidades distantes, distritos longínquos. Como jornalista, rebelei-me, mesmo sabendo do risco de ser demitido. Escrevi um primeiro artigo, “Pingue-pongue infeliz”. E foi um escândalo na cidade. Como era possível – discutia-se – o jornal criado pelo próprio Luciano Guidotti vir a criticá-lo? Os acionistas dividiram-se a favor e contra meu posicionamento. E Luciano enlouqueceu, pedindo a minha cabeça, convocando assembléia dos proprietários para a minha demissão.

Acontecera, porém, que um outro acionista do jornal, dr.Antônio Cera Sobrinho, o Doutor Cera, me dera – como presente de casamento – as suas 100 ações da “Folha de Piracicaba”. Era um número ínfimo, que me fazia, porém, pequeno acionista da empresa. Isso impedia Luciano Guidotti de demitir-me pura e simplesmente, apesar de nossas relações familiares. Domingos Aldrovandi – outro grande acionista – ficara a meu lado, por razões de interesse político, já que ele se tornara, como deputado, opositor de Luciano Guidotti. Era, ainda, a bagunça política: Aldrovandi e Luiz Guidotti unidos ao lado de Adhemar de Barros; Luciano e João Guidotti apoiando a ala de Laudo Natel. E eu, como diretor da “Folha”, em meio a toda essa confusão e entusiasmando-me com a Democracia Cristã de Franco Montoro e Carvalho Pinto.

No dia 1º de abril, efetivava-se o golpe militar. Na véspera, um sindicalista de segundo escalão, Newton da Silva, desencadeou uma greve contra um dos comendadores e poderosos industriais, Antônio Romano, dono da então poderosa Retífica Romano. Era uma greve injusta, pois Antônio Romano era, reconhecidamente, um empresário de sólidos sentimentos cristãos, generoso e simples. Essa greve atiçou ainda mais o ambiente social de Piracicaba, como se confirmasse que havia mais desordem do que pleitos significativos. Houve outras duas ou três pequenas greves, incluindo as das tecelãs da Fábrica Boyes.

Salgot Castillon – a cada greve ou confusão trabalhista – era convocado tanto por empresários como por empregados para fazer a mediação. Ele conseguia, com habilidade notável, transitar entre os dois extremos, em mais outro paradoxo de um político ser homem de confiança do capital e do trabalho. Essa dança de equilibrista, no entanto, foi minando a sua credibilidade, atacada incessantemente pelos “guidotistas”. Beirava à saturação a rancorosa bipolaridade entre “salgosistas” e “guidotistas”. Cada movimento popular radicalizava ainda mais as posições. A eclosão do golpe militar foi como que uma resposta – favorável a empresários e conservadores – aos que não aceitavam aqueles poucos mas confusos anos do governo de Jango Goulart.

A euforia foi quase geral em Piracicaba. E tornou-se orgulhosa alegria coletiva quando o Marechal Castello Branco, herdeiro do golpe, assumiu o governo e nomeou o piracicabano dr.Hugo de Almeida Leme – tímido professor da ESALQ – Ministro da Agricultura. As lideranças sindicais calaram-se e o próprio Salgot Castillon – daquela UDN populista – saudou a queda de Jango, mesmo porque ele mesmo, pessoalmente e quando prefeito, tivera desavenças com o então presidente da República. Houve algumas poucas e tímidas reações, especialmente vindas de grupos estudantis, em especial os do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz. No rastro deles, nós – os primeiros alunos da ECA, faculdade-mãe da futura UNIMEP – aderimos ao movimento estudantil através do C.A.Herrmann Júnior, do qual fui primeiro presidente, em véspera de concluir o meu bacharelado em Direito. Tive que fazê-lo na faculdade de Bauru, pois meu grupo – na PUC, de Campinas – foi “convidado” a pedir transferência, por força da movimentação política que fazíamos e que contrariava o então reitor, Monsenhor Salim.

Na “Folha de Piracicaba”, destoei do posicionamento dos outros dois jornais, Diário e Jornal de Piracicaba. Ambos haviam aplaudido o golpe militar. Até agora não sei explicar mas, no segundo dia do golpe, um rasgo de lucidez analítica levou-me a escrever um artigo que se tornaria profético: “Caminhos da frustração”. (O título saiu com um erro gráfico: “frustação”.) Nele, comentei que a ditadura seria longa e que cortaria a cabeça de seus principais líderes civis, como Adhemar de Barros e Carlos Lacerda. E foi o que aconteceu. Na Câmara Municipal, apenas dois vereadores e sindicalistas reagiram, ainda que timidamente, ao golpe: Celso de Camargo Sampaio e Jaime Cunha Caldeira.

A euforia pelo golpe foi comandada exatamente por lideranças que, em 1932, haviam lutado contra Getúlio Vargas e detestavam João Goulart. Odila Diehl – mulher do ilustre advogado e presidente da OAB, Jacob Diehl Neto – promoveu a “Marcha da Família, com Deus,pela Liberdade”, que já tinha acontecido em diversas cidades brasileiras. Em Piracicaba, as manifestações mais claras deram-se “a posteriori”. E, logo depois, quando Edmundo Monteiro, diretor dos “Diários Associados”, criou a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”, o tal movimento cívico contra o comunismo entrou em festa. Lideradas por outra saudosa da revolução de 1932 – a também anti-getulista Célia dos Santos Rodrigues – mobilizou as mulheres do MAF (Movimento de Arregimentação Feminina) que ela mesma presidia. Piracicaba ficou excitada, “dando ouro para o bem do Brasil”. Era quase a repetição da apaixonada movimentação cívica de 1932, contra Getúlio Vargas. Agora, revivida contra Jango. E a festa das senhoras do MAF ampliou-se: resolveram homenagear – e o fizeram, com grande garbo – o comandante do II Exército, General Amaury Kruel, com uma bandeira bordada a ouro. O General Kruel – que traíra João Goulart – tornara-se um dos pais da ditadura. E foi quase endeusado pelas senhoras piracicabanas do MAF.

Naquela oportunidade, vivi uma lamentável crise conjugal, com Mariana grávida de nossa primeira filha. Na “Folha”, a minha luta era solitária, apenas com poucos companheiros e já sendo boicotado por empresários. Os acionistas tinham-se afastado e quase todos – com exceção de Domingos Aldrovandi – doaram-me ou venderam-me, a preços simbólicos, as suas cotas na sociedade. Na realidade, eles – diante de toda a celeuma política na cidade e no país – queriam manter-se afastados de empresas de comunicação. Os perigos e ameaças não eram, ainda, declarados, mas claramente insinuantes. O jurista e ex-vice-presidente haveria de dizer que, numa ditadura, “o perigo está no guarda da esquina”. E isso começou a acontecer em Piracicaba. Políticos, empresários, sindicalistas, vereadores, cada qual parecia ter, ele próprio, o poder nas mãos. Eram os pequenos ditadores de uma realidade paroquial. E, por serem pequenos, revelavam-se ainda mais cruéis. Os conflitos na paróquia são mais rancorosos do que em dimensão nacional.

Minha mulher – com a percepção antecipada das mulheres – aconselhava-me a serenar, a aguardar os acontecimentos. Luciano e João Guidotti – por força de uma das críticas que eu fizera à administração – foram à redação da “Folha” tentando empastelá-la. E, quanto mais a truculência se revelava, mais me aumentava a indignação e a vontade de lutar. Mariana estava pressionada pela família e via-se dividida entre eles e o marido. E eu, dividido entre ela – grávida de minha primeira filha – e toda aquela luta jornalística. Ela chegou a implorar para que eu, nem que fosse simbolicamente, aparecesse nas tendas colocadas na praça central, onde se recolhia “o ouro para o bem do Brasil”.

A sua insistência tinha lógica: eu teria que fingir para sobreviver. Se não o fizesse – como dono e diretor de jornal – seria ainda mais fortemente tachado de comunista e subversivo. Acabei, a contragosto, aceitando a pequenina correntinha de ouro que ela tirou do pescoço e me deu. Concordei em ir mas, antes, queria assistir ao jornal da Televisão Tupi, com Maurício Loureiro Gama e Tico Tico, um repórter sempre submisso ao poder. Era a noite de 14 de junho de 1964, dez dias antes de eu completar 24 anos. Na chamada do jornal – então, ao vivo – um Tico Tico eufórico anunciou: “Juscelino …” – e, rindo, fez o gesto de quem corta o pescoço, degola. JK tinha sido cassado por Castelo Branco, que o traíra em sua promessa de manter as eleições de 1965. Não suportei e atirei um cinzeiro na tela do televisor. Poucos meses antes, eu entrevistara Juscelino num churrasco que lhe foi oferecido pela Refinadora Paulista, de Lino Morganti. E ele passou a enviar telegramas à Folha, solicitando-nos apoio. Amargurado com a cassação, recolhi-me a meu escritório e comecei, compulsivamente, a escrever o livro “Bagaços de Cana”. Não dei “ouro para o bem do Brasil” e radicalizei, ainda mais, a minha oposição.

A “Folha”, minha equipe e eu tornamo-nos como que proscritos na cidade. A fama de comunistas e de subversivos se espalhou. As primeiras convocações para ir ao DOPS e ao G-Can, de Campinas, começaram. Os “guardas da esquina”, ditadores paroquiais, queriam trucidar inimigos e adversários políticos. E, quando o Marechal Presidente Castello Branco assinou outro Ato Institucional, escrevi o artigo que, enfim, deu motivos para perseguições ainda maiores: “O Marechal da Banda de Lá”. Na verdade, o título era “Marechal da Banda”, paródia à música carnavalesca, “General da Banda”. Um dos meus grandes – e, ainda agora, inesquecível – amigos, Antônio Perecin, horrorizou-se ao lê-lo, antes de ser publicado. Discutimos por longo tempo e, finalmente, cedi à sugestão dele: “Coloque, então, o Marechal da Banda de Lá”. Concordei, coloquei o “de lá” e foi o que me salvou, pois, por denúncia do Delegado Adir da Costa Romano – também agente do DOPS – fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional, por “crime de subversão”. Foi, à época, minha medalha de honra esse ser visto, perigosamente, como um perigo à nação, a partir de um jornalzinho do interior. Outros inquéritos e muitos processos haveriam de surgir.

(CONTINUA)

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