A HISTÓRIA QUE EU SEI (XXVIII)

As eleições de 1958
No ano de 1958, Piracicaba vivia um clima de euforia. O Brasil, ficara, pela primeira vez, Campeão do Mundo de Futebol, na Suécia. E, no time campeão, lá estavam dois piracicabanos: Newton de Sordi, lateral direito, e Mazzola, o centro-avante. Eram recebidos em praça pública como heróis, desfilando em carro de bombeiros, o famoso caminhão-tanque “American La France” da corporação. De Sordi começara no “Palmeirinha” da Cidade Alta, e Mazzola, o Cuíca, no Clube Atlético Piracicabano de Vila Rezende. Edílio Gianetti, já um experiente dirigente esportivo, fora recepcioná-los em São Paulo. Foi uma festa popular, da mesma maneira como havia sido o Carnaval, como que renascido, em que a figura mais procurada era a do ator Hélio Souto, casado com Maria Helena Morganti. 1958 foi um ano de euforia. A classe média começou a passear de DKW-Vemag, com a inauguração da concessionária de Max Weiser e Amadeu Castanho. Os “quarentões” passaram a ter aulas na Academia de Jiu Jitsu, inaugurada por um dos famosos Irmãos Gracie, George Gracie. Luciano Guidotti entregava o Mercado Municipal inteiramente reformado. obra que começara com Samuel Neves. Os japoneses comemoravam o 50º aniversário de sua chegada a Piracicaba, inaugurando o Clube dos Japoneses. O Presidente Juscelino e o Governador Jânio Quadros haviam-se encontrado em Piracicaba, visitando e elogiando as indústrias M. Dedini e Refinadora Paulista.

Neste clima, aconteceram as eleições de 1958, para Governador do Estado e deputados. “Ademarismo” e “janismo” voltavam a se encontrar também em Piracicaba. A grande disputa seria entre Adhemar de Barros e Carvalho Pinto, que tinha sido excepcional Secretário da Fazenda do governo Jânio Quadros. Em Piracicaba, complicava-se a situação política. O deputado Bento Dias Gonzaga lançava-se candidato à reeleição, pelo PTN. E sua situação era delicada: era um dos homens que se vinculara ao “janismo”, mas as suas origens políticas, por força da adesão de seu pai, Luiz Dias Gonzaga, eram “ademaristas”. Bento Gonzaga teve que ficar no pleno exercício de toda a sua habilidade política, sem definir-se ou definindo-se conforme a preferência do eleitorado. O Prefeito Luciano Guidotti decidiu-se, por simpatia que nunca escondera de ninguém, apoiar a candidatura de Carvalho Pinto, ainda que fizesse objeções a Jânio Quadros. Um de seus homens de confiança, o vereador Domingos Aldrovandi e Presidente da Câmara, alinhava-se entre os “janistas” mais ativos. O jornalista Losso Neto, também. E a UDN, apoiando Carvalho Pinto, lançava a candidatura do vereador Francisco Salgot Castillon, já com alto índice de popularidade e como que herdando o espólio “populista” de Samuel Neves. Mais dois candidatos também pleiteavam uma vaga na Assembléia Legislativa de São Paulo: Francisco Libardi, um professor que tinha o apoio dos “integralistas”, e o também professor da ESALQ, Warwick Estevam Kerr, candidato pelo PSB.

O deputado eleito foi Bento Dias Gonzaga. Carvalho Pinto vencia Adhemar de Barros, elegia-se governador, começava a pavimentar o caminho de Jânio Quadros, para a Presidência da República. O vereador Salgot Castilton conhecia a sua primeira e única – derrota eleitoral, e ela se devera a um momento de inabilidade durante a campanha. Ocorria que Samuel Neves – de cujo governo Salgot Castilton fora líder na Câmara, e como seu afilhado político – estava de relações rompidas, ainda que não oficialmente, com Luciano Guidotti. E, na noite do comício, na Praça da Catedral, de Carvalho Pinto – ao qual estavam presentes grandes vultos políticos, incluindo o Governador Jânio Quadros – o Prefeito Luciano Guidotti resolveu não comparecer ao palanque. Luciano, homem cheio de melindres, aborrecera-se porque Jânio e Carvalho Pinto não tinham ido jantar em sua residência, preferindo a casa de um antigo correligionário, William Maluf, “janista” histórico. O jornalista Losso Neto – cuja filha, Antonietta Rosalina, se tomaria Procuradora do Estado no governo Jânio Quadros entrou em pânico. Luciano Guidotti estava no Ginásio Municipal, resistindo a comparecer ao comício. Losso Neto sabia que Luciano era um homem vaidoso, suscetível a agrados e elogios. Apoiado nessa convicção, propôs um plano a Salgot Castillon: que este, Salgot, ocupasse o microfone e ficasse “esquentando” o público, fazendo elogios também a Luciano enquanto ele, Losso Neto, iria até o ginásio – de radinho de pilha na mão, pois o comício estava sendo retransmitido – para convencer Luciano Guidotti. E foi o que aconteceu: ouvindo, por rádio, a aclamação popular, os “vivas” a seu nome, Luciano foi ao comício.

Naquelas eleições, saíram candidatos a deputação federal o deputado João Pacheco e Chaves, reelegendo-se, e um professor de línguas do I.E. “Sud Mennucci”, Benedito de Andrade. Tratava-se de pessoa muito querida da juventude e o fato de ser negro – um negro lançado pela UDN! – deu a Benedito de Andrade uma votação expressiva, surpreendendo os meios políticos. Lançado com Salgot Castillon para fazer a “dobradinha” da UDN, Benedito de Andrade empolgou o eleitorado com sua oratória exuberante, sendo o responsável, naquelas eleições, por uma participação aguerrida e entusiasmada da juventude piracicabana. Derrotado, Benedito de Andrade ainda se manteve na política por mais algum tempo, chegando a vereador à Câmara Municipal. Afastou-se da UDN e do “salgosismo”, aderindo ao “guidotismo” .

A derrota de Salgot Castillon à Assembléia Legislativa alterou os rumos da política piracicabana. Aqueles 18 votos que lhe faltaram acabaram sendo determinantes dos acontecimentos políticos que, logo no ano seguinte, em 1959, ocorreriam em Piracicaba. Salgot Castillon sempre afirmou que nunca pretendeu ser candidato a prefeito municipal. E não o seria, se não fosse aquela derrota. Em 1959, diante dos acontecimentos que se precipitaram, Salgot Castillon foi candidato à sucessão de Luciano Guidotti. E venceu.

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