Benemerância

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O Natal mexe com todo mundo. Para muitos é tempo da benemerência, tempo de fazer alguma coisa pelos outros. Acaba até faltando pobre para ‘ajudar’ tanta gente que quer retribuir um pouco do muito que recebeu ou mesmo ficar bem com a própria consciência. Fazer campanhas, visitar abrigos, caçar pobres para dar almoço, distribuir alimento, brinquedos para crianças da periferia, e por aí vai

Não preciso dizer que tais gestos merecem admiração. Não fossem essas pessoas muita gente excluída das “rodas sociais e das igrejas” passaria o Natal em branco. É difícil festejar vendo pessoas sofrendo. A miséria perturba e questiona quem conseguiu um pouco mais na vida. O desejo de resolver logo o problema ou se ver livre do incômodo provoca ansiedade e muitos acabam fazendo justiça com as próprias mãos, isto é repartindo que lhe sobra ou mesmo arrecadando coisas para dar a quem não tem.

Evidente que é nossa obrigação sempre socorrer necessitados, afinal fome e sofrimento não podem esperar. Porém, por que tais atitudes ganham força no período do Natal se cerca de um terço da humanidade vive em permanente estado de miséria? Claro que estamos todos em débito com a mensagem de fraternidade que Jesus veio trazer. Tanto que, terminadas as festas solidariedade e ajuda ficam fora de moda. Posso concluir que esse modo de encarar a indigência ajuda mais quem dá. Afinal alguém de nós se sentiria amado dependendo da caridade alheia? O benemerente em geral é bem visto e valorizado pela sociedade; goza de consideração, ocupa melhores lugares, se candidato será eleito, tem crédito e depois que morre vira santo ou nome de rua. Grosso modo falando, ele presta um grande serviço à sociedade já que ameniza o sofrimento dos pobres sem questionar privilégios ou provocar revoluções.

Se não me engano, foi Dom Helder quem disse que quando ajudava os pobres era chamado de santo. Quando, no entanto questionava por que havia tantos pobres era tido como subversivo. Parafraseando Mariano Grondona, a benemerência gosta tanto dos pobres que os multiplica quando distribui comida, leite, agasalho, tijolo, remédio, brinquedo, etc. Com isso a fila dos ‘necessitados’ só cresce, dando ao benemerente a sensação de estar salvando o mundo. Seu ego infla, se sentindo acima dos demais mortais. Atrai cada vez mais moradores de rua dando marmitex e cobertores. Cria entidades para acolher idosos, dependentes, crianças, etc., que ficam lotadas do dia pra noite. Como os recursos nunca dão, fazem chantagens emocionais com os cidadãos, já garroteados pelos impostos; ou fazem mega eventos, onde políticos ganham visibilidade e seletos grupos torram grana, afinal a solidariedade tudo justifica.

Acontece que de janeiro a dezembro deste ano cada piracicabano “desembolsará” uma média de R$ 3,7 mil para pagamentos de tributos municipais, estaduais e federais. “A tributação sobre salários, consumo e patrimônio leva 41,3% da renda do trabalhador”. (JP 22.05.14). Além de sustentar um Estado perdulário, omisso e corrupto; bancar altíssimos salários e extravagâncias de políticos, magistrados e funcionários marajás pra onde vai tanto dinheiro? Não é dever do poder público promover a equidade social? Se existe exclusão num país tão rico algo está errado. É isso que precisa ser dito, mostrado e investigado. Porém, diferente do benemerente, quem denuncia é ameaçado e tido como encrenqueiro, inoportuno e politicamente interesseiro. Ora, segundo Desmond Tutu, arcebispo anglicano e Prêmio Nobel da Paz em 1984, “Se ficarmos neutros numa situação de injustiça, teremos escolhido o lado do opressor”. Portanto, de que lado está o benemerente?

Segundo Silvio Caccia Bava “Pobre é aquele que não pode decidir sobre sua vida, e não aquele que não tem nada”. Ora, o que fez a benemerência senão criar uma massa glutona, cega, mal informada, insatisfeita, dependente e acomodada?

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