Canga

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assentosO aviso é claro: “Assento preferencial para idosos e gestantes”. Porém, o folgado, que botou o bundão sobre ele está nem aí. Com o boné enterrado na seborreica cabeça, finge dormir. Quem vai botar a cara com ele? Qual será sua reação?  Sujeito que age assim não é só mal educado. É alguém sem senso de coletividade. Vai bater boca com um xucro desse tipo? Vai sobrar para quem?

Fazer o quê, então? Colocar policial vigiando cada assento preferencial? Faz-me lembrar Benjamin Disraeli (1804 – 1881), político e escritor britânico: “Quando as pessoas são puras, as leis são desnecessárias; quando são corruptas, as leis são inúteis”. Não é nosso caso? O Brasil tem lei para tudo porque somos um povo ainda meio selvagem. E o poder público em vez de investir em EDUCAÇÃO, faz leis para conter e punir a manada, e assim manter o controle. Coisa de elite tosca. Por isso na hora da precisão nenhuma lei funciona para o pobre. Para os ricos todas funcionam, já que foram feitas por eles a fim de assegurar seus privilégios.

Estatuto do Idoso, do Deficiente, do Consumidor, de Trânsito, ECA; Lei Maria da Penha, etc., impedem maus-tratos?  Vejam isso: Relatório “Violência Letal Contra as Crianças e Adolescentes do Brasil” (Fundação Perseu Abramo 08.07.16), elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), mostra que quase 29 adolescentes e crianças foram assassinados por dia no Brasil em 2013. Em homicídios de crianças e adolescentes ocupamos 3º lugar entre 85 países analisados. 60% das vagas para deficientes ficam vazias. Empresas alegam baixa procura porque falta gente treinada. Nem vagas de estacionamento para eles são respeitadas. Mais de 500 estupros são cometidos por ano no Brasil. Violência contra a mulher só cresce. Os CREAS não dão conta dos casos de judiação e exploração de idosos.   A cada ano, perto de 45 mil pessoas morrem em acidentes de trânsito no Brasil.

Apostar em leis é descrer na capacidade do ser humano de ser humano. Pessoa que não se sente incluída e nem recebe credibilidade não tem prazer em ser útil, gentil e colaborativa. Lei que não seja fruto amadurecido da convivência social é ingerência. Por isso, na mentalidade do brasileiro, leis existem para ser fraudadas – o que por sua vez fomenta o mundo da propina, da contravenção, da ameaça, da caguetagem e do ilícito enriquecimento. Como uma coisa puxa outra, o Estado cria um oneroso sistema de fiscalização, controle, repressão e punição – sistemas esses também sujeitos à corrupção. Excesso de leis só serve para encher cadeias de pobres, onerar a sociedade e transformar infratores em bandidos.

Até dentro de salas de aulas existem câmeras. É o fim da espontaneidade. Criamos leis para nos proteger, porem nenhuma delas por si só garante segurança, alegria, sossego e bem estar. Isso tudo e muito mais vêm das relações saudáveis dentro de casa, com os vizinhos, no trabalho, na rua, na escola, no lazer. Independem de lei. Como no caso do assento, se dentro da pessoa não estiver ‘escrito’ que precisamos nos respeitar mutuamente, ainda mais quem é frágil, e se a pessoa não tiver chance de descobrir que dá prazer ser bom, leis de nada adiantam.

Diz o Livro do Eclesiástico: “Um governante sábio educa o seu povo, o governo de um homem inteligente é bem ordenado. Qual o governante do povo, tais os seus ministros”. (10,1). Educação vem do berço, dizem. Ora, se tivéssemos pais nesse nível seríamos outra nação. Acontece que ao grosso da população é vedado acesso à informação. Afinal ninguém põe canga em quem sabe das coisas. Não é para formar cidadãos participantes e conhecedor das leis – especialmente da Constituição Federal – que nossas escolas funcionam, mas para formar mão de obra barata e submissa.

Não é a toa que a molecada mais esperta foge dela. Está errada?

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