Infância em bianco e nero

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Sim, tive sorte na vida; nem por isso ausência de desafios e de caminhadas por locais áridos e pantanosos. Fui cuidada a amada mas, na infância, minha avó paterna, uma mulher má e manipuladora que infernizava a vida dos filhos, colocava minha casa em tensão e alvoroço. Eu, a filha mais velha… Meu pai sofria extremamente com isso, e muito cedo comecei a odiá-la tanto quanto amava minha avó materna.

Bem criança ainda, tinha ímpetos de cólera, perfeitamente reprimida ou controlada. O que mais fazia era gritar pra mim mesma no espelho, quando sozinha, e desarranjar meus cabelos bem penteados.

Detestei minha avó durante bom tempo, com uma cólera fresca, impotente e legítima, sempre desejando a morte daquela figura responsável pelo suplício dos meus pais e tias. Quando ela finalmente morreu, anos depois, fiquei bem feliz. Foi grande dia de festa para mim. Achei bom ir a São Paulo, sob a chuva fina e triste, sepultar aquela odiosa figura, juntamente com um ou outro personagem vestido de preto que apareceu no enterro. Mas havia mais, acreditava que a mentalização assassina tinha, finalmente, surtido efeito! Eu matara minha avó, após anos de persistência, trabalho e desejos bem direcionados. Estava, por isso, de parabéns. Nunca senti culpa por tais sentimentos. Porém, já adolescente e adulta jovem, coloquei em questão meus superpoderes mentais, uma vez que minha avó estava idosa e bem doente.

Não sei se acreditava em inferno naquela época. Imagino que sim. Inclusive tínhamos uma coleção cara, completa, ilustrada de A Divina Comédia de Dante; eu a lia muito e conhecia bem todos os círculos do inferno. Pensando melhor, não sei como meus pais permitiam que eu dissecasse e folheasse tanto aquilo, com suas figuras desesperadoras e horrendas; mas talvez achassem que fosse bom para minha formação. Então, certamente eu acreditava no inferno por força da religião, da literatura e da arte, mas nunca pensava naquela velha horrível lá tampouco, cara a cara com o demo como ela mereceria, ou em que círculo estaria. Isso não me importava. Bastava-me que estivesse longe de mim o suficiente, que sumisse, que deixasse de nos atrapalhar! E ela havia sumido. Tampouco minha formação cristã ou o exemplo do lado bom de meus pais fizeram-me pensar que a ira em si causasse algum lastro de chumbo o qual pudesse puxar-me, vamos lá, para o purgatório por alguns séculos saeculorum (porque o máximo a que chegávamos, era mesmo ao purgatório). Karma, darma, maia e outros termos só se apresentaram muito mais tarde, para mim. Não que os esteja, aqui, defendendo.

Se tivesse prestado atenção a tudo no entanto, ou tivesse inventário suficiente para tal, teria percebido que poderia vir a ser uma pessoa muito prática e racional, contrapondo-me às minhas próprias paixões, o que tento disfarçar às vezes. Mas durante bastante tempo não parecia isso, porque bem romântica e sonhadora. Na verdade, aquele ódio infantil, vegetando entre explosões de sensibilidade amorosa por outras pessoas e coisas, também dava mostra de idealismo futuro, de inconformismo e inclinação para luta.

Tais elementos descritos e um tanto mais brigaram acirradamente dentro de mim, até que formaram um caleidoscópio ordenado, onde cada ato, sonho, convicção, arrependimento ou ideia construíram certa mandala dinâmica que faz também, hoje em dia, a pessoa que me tornei. Seja lá quem for tal pessoa, seja lá o que acabou sendo, o certo é que, no conjunto, afinal, faz bastante sentido. Até porque tudo faz sentido no mundo, inclusive os maiores absurdos, mesmo que não o alcancemos nem jamais venhamos a alcançar. Isso é puro azar nosso certamente, estarmos tanto assim pregados ao solo.

 

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