Nós que aqui estamos…

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Vida e morte caminham conosco desde o ventre de nossa mãe. A vida é como uma ponte. Não se constrói morada sobre pontes. Estamos de passagem. “Setenta anos é o tempo de nossa vida, oitenta anos, se ela for vigorosa; e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez, pois passam depressa, e nós voamos”. Salmo 89, 10. Pra que carregar fardos se nada transporá as portas da morte, a não ser nosso eu desnudo e nossas obras? Corpos sarados, espíritos esquálidos. Culto à aparência. Horas preciosas consumidas nas academias atrás da juventude perene. Corpos agredidos por anabolizantes; gente bombada escondendo almas agonizantes. Mulheres peladas nas revistas, prostitutas virtuais. O que é belo deve ser mostrado. Pílulas para sexo, para a tristeza e para a depressão. Sugar cada oportunidade até o bagaço. Viver bastante prolongando uma existência fútil, ocupada demais para perder tempo com o essencial. Por isso precisa sempre de mais tempo, pois sabe e se sente em dívida consigo mesmo. Essa geração vive como se a morte não existisse, apesar de vê-la todos os dias e a toda hora. Contudo, “O medo da morte nos impede de viver, não de morrer”. (Paul C. Roud).

Precisamos rever nossas crenças e nos reconciliar com a morte.

Temos medo dela porque foi associada à dor, ao desespero e à separação. É isso que mostram os filmes, as novelas, a vida. Quem inventou a morte bruta foi a insensatez. É assim nas grandes cidades. A irresponsabilidade de governantes egocêntricos – como o de São Paulo ultimamente – tem feito aflorar o lado selvagem da alma humana. O nº de homicídios na capital paulista subiu mais de 100% do ano passado para cá – 144 assassinatos até agora. Vidas ceifadas pelo ódio e sede de vingança. Esta é a morte que os homens inventaram.

No entanto, quem tem fé sabe que a morte é a amiga a nos esperar lá no fim de nossa jornada para nos carregar até os braços de Deus. A morte é profilática. Ela nos humaniza. Nos faz ser o que realmente somos. Purifica-nos do egoísmo e da vaidade. É ela que mostra o sentido que tem nossa vida. Na hora da nossa maior fragilidade, quando desejarmos ardentemente a libertação, ela virá para aliviar nossos ombros da carga inútil que carregamos e nos livrará do sofrimento prolongado imposto pela medicina, que a tem como inimiga.

Ao morrer, São Francisco quis que o colocassem nu sobre uma tábua e com a cabeça apoiada num toco. Nada levava, senão as mãos repletas das obras que realizou. Tinha somente quarenta e quatro anos. “Louvado sejas tu, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, porque nenhum homem vivo dela pode escapar”, cantava ele.

Somente uma vida vazia suportaria viver para sempre nesse mundo. Quanto mais nos aperfeiçoamos em nossa caminhada, mais almejamos por plenitude e eternidade, porque quanto mais elevados, mais nos cansa a futilidade das pessoas. “Fizeste-me para Ti e só em Ti meu coração encontrará repouso”, dizia Santo Agostinho. Amamos a vida; não queremos morrer. É justamente este desejo que a morte vem realizar.

“Nós que aqui estamos por vos esperamos”. É o que devemos pensar na nossa visita ao cemitério neste Finados. Meditando nisso viveremos melhor, viajaremos mais leves e em paz conosco mesmos. Afinal, não há milagre. Cada um morre como vive.

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