A espiã adúltera

EspiãQue o mundo está contaminado por guerras religiosas – em todos os níveis e em todos os quadrantes – parece não mais haver dúvidas. Dúvida existe quanto ao aproveitamento político disso: a guerra religiosa leva ao conflito político ou é o conflito político que leva à guerra religiosa? O fato é que a tragédia se dá especialmente nas chamadas religiões abrahâmicas, monoteístas, em suas três vertentes: judaísmo, cristianismo, islamismo. São judeus contra muçulmanos, são cristãos contra cristãos, muçulmanos contra cristãos, todos falando em nome de Deus e da paz. A fé religiosa pode cegar a qualquer reflexo de racionalidade.

A propósito dessa luta sem trégua, lá estava, num cantinho quase escondido de jornal, a notícia para, talvez, despertar grandes reflexões teológicas, sociológicas, políticas, filosóficas, o escambal. Ou, então, apenas para despir falsos moralismos e hipócritas condenações. A fé pode ser capaz de dar muitas versões para uma mesma realidade, conforme interesses em jogo. A notícia referia-se à mulher espiã do Mossad israelense que, como se sabe, é reconhecido como um dos mais competentes serviços de inteligência do mundo. A questão estava posta: quando a mulher espiã é casada e, para o serviço de espionagem, precisa fazer sexo com o espionado, como é que fica a sua virtude, no código religioso judeu?

Um rabino dos mais respeitáveis resolveu o conflito para a mulher espiã israelense, deixando, no entanto, em situação complicada o marido dela. Pois, segundo o rabino, a espiã estaria cometendo adultério por uma causa justa – que seriam os interesses do Estado de Israel, nem sempre os mesmos do povo judeu. Logo, deixaria de ser uma pecadora, não trairia o marido e o adultério não existiria, mesmo que ela dormisse, talvez, com todos os diplomatas ou soldados da Faixa de Gaza, quem sabe? O rabino nada perguntou ao marido da espiã, mas já deu a solução: nessa situação, se o marido estiver aborrecido com o adultério oficial da espiã e sua mulher, o melhor que deveria fazer seria pedir o divórcio por algum tempo e, se quisesse, retomar o casamento quando a missão estivesse encerrada. O que poderia desencadear, sabe-se lá, uma série de casamentos e divórcios do mesmo casal conforme a missão para o qual a generosa mulher fosse designada.

Ora, nada tenho com isso, mas acredito que o rabino acabou encontrando uma solução formidável para o mundo atual, de liberalidade sexual, de promiscuidade, de desmoronamentos de casamentos e de valores. Ou seja: se a causa é justa, a ação anteriormente condenada passa a ser justificada. Isso já existia no direito da humanidade desde os romanos, desde a sabedoria de Salomão. Quantos milhões de mulheres – e, agora, também homens – não se prostituíram pela sobrevivência de seus filhos, de sua família, por necessidades vitais? E quantos milhões não foram condenadas socialmente, já que, pelo visto, fica mais fácil entender que uma mulher se prostitua em prol da pátria e da religião do que para salvar sua própria família? Quem, afinal de contas, define o que sejam motivos justos? E justos para quem?

Fica-me a dúvida: o que o rabino diria se uma mulher muçulmana – talvez, uma iraniana espiã – dormisse com um general israelense para, na cama, obter informações importantes? Com certeza, a culpa seria de Maomé. Bom dia.

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