A república ideal

picture (3)De quando em vez, dá-me na veneta imaginar a república dos sonhos, acho que herança do lamento de Saldanha Marinho – que erroneamente alguns atribuem a Prudente de Moraes – diante da ditadura imposta por Floriano Peixoto: “Não era esta a República dos meus sonhos.” E continua não sendo, apesar de o país retomar o desenvolvimento. Como república – a boa e velha idéia de Cícero, a “res publica” – ainda está por se fazer.

Confesso não me entusiasmar com a República brasileira. Penso mais em democracia, que é sempre um sonho de liberdade, princípio do governo. Mas não há necessidade, para uma democracia plena, de regimes republicanos. A Inglaterra é democrática sem ser republicana. E muitos e muitos outros países também, convivendo ao lado de alguns legítima e honestamente republicanos. A questão, parece-me, está na legitimidade. E é o que falta ao Brasil em sua estrutura jurídica e política. A “res publica” ainda não se consumou. A “coisa” continua sendo privada, as capitanias hereditárias transformadas em feudos com outra configuração jurídica. O poder transfere-se de pai para filho. Não apenas no Norte ou no Nordeste, mas onde quer que existam políticos com filhos e netos e genros e noras e primos ambiciosos de poder. Em Piracicaba também, essa história, já longa, de heranças políticas, desde os Moraes Barros, passando pelos Castro Neves e os Dias Gonzaga, até hoje havendo arremedos e “cosanostras”, ação entre amigos.

Por pouco me entusiasmar com a república que ainda temos, vou inventando a minha, sonhando com ela. A mais acalentada é a de Platão, ainda. Seguida da Utopia, de Morus, que imita a platônica. Sumiu a república romana. Falharam as repúblicas soviéticas. Ainda estão no aprendizado as modernas, nascidas do ideário das primeiras grandes repúblicas, a dos Estados Unidos e a da França. Que se há de fazer se, colonizado por Portugal, a nossa república brasileira nasce com defeito genético, uma estrutura de sesmarias distribuídas patrimonialisticamente, sem cuidar de mérito, de trabalho, de direito?

Há uma experiência de república que encantava, nem sei se ainda existe com o mesmo fascínio: a República de San Marino, encravada na Itália. Não a conheço, mas – de ler e de estudar – embasbaquei. O sonho socialista estava lá. Mas não sei em quê deu e, daí, desisti de morar numa república pequenina, organizada, culta, refinada. Fui para o mato. Mais do que sonho, era delírio. Nada há para imitar. Pois a república brasileira – para ser verdadeira, legítima, honesta – tem que ser municipal, talvez até mesmo de bairro. Cada bairro, uma república. Cada cidade, uma confederação de repúblicas. Não há outra saída, penso seu. Afinal de contas, cada um quer ser rei em seu quarteirão. E em tudo o que faz. Teve até uma casa comercial com realeza, o “Rei dos Barateiros”.

A república dos meus sonhos teria um Rei. Não o Fernando Henrique, nem Lula. Meu rei não deveria governar. Nunca. Ele ficaria apenas passeando, sem atrapalhar. Aí está Joãozinho Orleans e Bragança, disponível. Para governar, um parlamento eleito pelo povo e um primeiro ministro. Mas que pudessem ser dispensados por incompetência ou gatunagem, como se faz na vida real. Deputados e senadores – e vereadores e deputados estaduais – reunir-se-iam apenas a cada dois meses. Debateriam, votariam e iriam para as casas, para ganhar o pão de cada dia.

O rei reinaria, o primeiro ministro governaria, o povo seria o zelador da “coisa pública”. Como se faz em clube de futebol e em escola de samba. E eu ficaria contando histórias. Seria isso. Bom dia.

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