Anarquistas, vândalos, mulheres vadias

papa-francisco-no-brasilSão os mistérios da vida. Algum leitor meu haverá de se lembrar que, já há alguns anos, venho insistindo para observarmos os sinais do “eterno retorno”. É lei ontológica: tudo o que é bom retorna. E não como passado ou retrocesso, mas como anúncio de um novo futuro. A crueldade materialista de nossos tempos – dominados pelo império do mercado – minou a alma do mundo, incluindo a generosa, solidária, alegre e fraterna alma brasileira. O mundo sempre soube ser, o Brasil, um país e uma nação predestinados a criar uma nova civilização. Quando nos chamaram de “País do Futuro”, falava-se de esperança. E o Brasil – apesar de todos os nossos avanços – continua sendo, sim, o “País do Futuro”, a pátria de uma visão de mundo mais generosa e humana.

A presença do Papa Francisco no Brasil não foi, apenas, a chegada de um outro papa. Já havíamos acolhido duas vezes João Paulo II e, ainda recentemente, o Papa, agora emérito, Bento XVI. Francisco não foi mais um papa a estar no Brasil. Foi um inesperado, um surpreendente, um hipnótico e imantador raio de sol, como que uma nuvem milagrosa cobrindo o Brasil de cordialidade, de humildade, de doçura, de paz. Não houve quem não se surpreendesse, com emoções e sentimentos atropelados, a quase perplexidade de ver, ouvir e sentir aquele homem falando de humildade e generosidade num tempo de espetacularização, de ostentações vergonhosas, de cinismos e egoísmos insuportáveis.

O Papa Francisco confirmou o “eterno retorno”. Que é o reinício, a retomada, o começo de uma nova jornada humana, inspirada em princípios inabaláveis e em valores esquecidos. O Brasil e os brasileiros – se tivermos juízo – saberemos entender que essa não foi apenas uma visita histórica, mas algo providencial, como que uma escolha preferencial dos desígnios misteriosos do infinito. Foi o sinal, o grande sinal para o Brasil entender que será em nós, conosco e por nós que poderá ser iniciada uma nova e tão desejada civilização, que é a civilização do amor.

É tolice, hoje, lutar-se por ideologias, criar confrontos ideológicos, ser contra o capitalismo ou contra o comunismo, a favor deste ou daquele. O verdadeiro seria buscar a humanização deles.  E o próprio Francisco deu-nos o exemplo: não temos sequer de criar confrontos entre religiões. Que estas se unam – esquecendo divergências históricas ou teológicas – para a implantação da justiça social no mundo, no combate à fome, em prol da saúde de todos, em especial de crianças e de idosos. Depois – convida-nos o Papa – de vencer a miséria, a pobreza, de enobrecer a dignidade humana – depois, então, se fale de divergências e de confrontos. É o convite àquilo que define a humanidade: a fraternidade. Sem esta, a humanidade nada mais será do que um grupo de primatas diferenciados. Apenas isso. E um perigoso animal predador.

Ninguém haverá de esquecer o que foram estes dias de uma juventude admiravelmente sadia, unida apesar de diferenças de culturas e de línguas, em torno de um sonho maior e mais amplo, que se resume na mensagem de Cristo. Até a Igreja se tornou mais cristã, ou apenas cristã. O Papa Francisco – com seu carisma encantador, com sua humanidade que transuda espiritualismo – propõe essa revolução do amor. Que pode e deve começar no Brasil, na nossa diversidade amigável, na simbiose carinhosa de culturas diferentes, na redescoberta do povo como fonte de virtudes e na negação aos impérios do mau capitalismo, da má política, da corrupção endêmica. Não há que ser contra a economia capitalista, mas é urgente e necessário humanizá-la. E fazer com o que o homem seja o sujeito e não o objeto da economia. Apenas isso.

Aquelas multidões de jovens deixaram um olor de santidade no Rio de Janeiro. E o incenso das comemorações evolou-se por todo o território nacional, penetrando nos pulmões das almas brasileiras. Ficamos impregnados desse sentimento de fraternidade, de compaixão, de um viver generoso. Que a corrupção ponha, pois, suas velhas e sórdidas barbas de molho. E que movimentos estúpidos – de agressividade inútil e apenas destruidora – sejam, de vez, repudiados. O Brasil – semente da “civilização do amor” – não tem mais lugar para movimentos de anarquistas, de vândalos e de mulheres vadias. Pois é contra essa visão perversa de sociedade que a juventude brasileira irá se construir. “Bote Fé” – convidou o Papa. E não há outro caminho. Bom dia.

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