As pitangueiras de 2008

picture (11)Há tempos e logo nos primeiros dias do ano, confessei ter-me dado conta de como, tolamente, fui-me controlando em minha capacidade de morrer. Pois eu já descobrira que morrer, morrer sempre e continuadamente era a única maneira possível para alguém manter-se vivo e espiritualmente íntegro.

Tenho certeza de já ter morrido um milhão de vezes. Morte de angústias, de dores, de saudade, morte de amores. Ficou-me, em tantas mortes, a quase certeza de a grande resposta estar em viver os sentimentos, todos eles, em plenitude e, depois, morrer. Para se renascer limpo e novo. Pois, após cada morte, o dia ou a simples hora seguinte aparecem luminosos como se fossem a primeira manhã da vida, a aurora inicial.

No entanto, nos últimos tempos, sinto ter-me esquecido de morrer. Foi como se eu tivesse resolvido controlar a morte, administrando a angústia. Mas angústias não podem e não devem ser administradas. É preciso permitir que elas existam, que venham à tona, que escapem do coração e apunhalem a alma. E permitir que estourem e que os estilhaços nos machuquem. É preciso morrer de angústia, senão ela envenena tão devagarinho que será outra a morte, morte em vida, mortos com vida.

É como a alegria, penso eu. Não se pode ficar alegre aos poucos ou em conta-gotas. São tempos onde tão raras têm sido as alegrias que, quando nos chega pelo menos uma delas, é preciso vivê-la em toda a sua intensidade até mesmo pueril. Tem-se que fazê-la explodir e, então, morrer de alegria. Para que, depois, surjam e ressurjam outras.

Há alguns anos, eu estava vivendo essas mortes controladas, alegrias contidas, angústias administradas quando, então, tocou o telefone. Era uma velha senhora, dona Jandira, que me honrava sendo minha leitora lá na sua cidade de Sumaré. Nunca a conheci, não mais soube dela. Mas ficaram-me lembranças felizes de dona Jandira e a sensação de amizade e carinho que foram além do tempo e do espaço. Como pude nem sequer ter-lhe anotado o telefone? E por que acabei não indo à casa dela, aceitando o café e o bolo de fubá para o qual a velha dama me convidava? Nem seu nome completo cheguei a saber, nessas tolices irreparáveis da vida.

Então, dona Jandira telefonou-me. De Sumaré. Preocupei-me, pensando fosse algum problema, divagações sobre algo que eu escrevera, mesmo porque, em sua sabedoria, a doce e sábia mulher me falava de tolerância, de paciência, de compreensão – virtudes e atributos que quase sempre me faltaram. Fiquei em silêncio, ouvindo-a . Ela, dona Jandira, me telefonara – no meio de uma tarde em que o mundo se atropelava em atribulações – apenas para dizer-me que, em seu quintal, a pitangueira estava em flor, maravilhosamente em flor. “Veja, filho, como a vida é linda. As pitangueiras estão em flor.” – falou-me apenas isso.

Já contei a respeito disso, do meu choque. Sei que, quando ela desligou, olhei meu jardim e vi que árvores e arbustos estavam em flor. Tinha-se ido o Inverno e as flores renasciam. E renasciam por terem morrido no frio de suas tristezas. Dona Jandira tivera olhos de ver o que quase ninguém vira. E, como fazem os profetas – que vêem e anunciam antes – ela me chamava para anunciar a presença da beleza. Eu não vira por estar vivendo demais outras coisas, muitas delas inúteis. Era isso e eu me esquecera: eu precisaria ter morrido antes. Morrer na angústia. Para, ressuscitado, voltar a ver.

2007 morreu. Nestes primeiros dias de 2008, já estão lindas as pitangueiras em flor. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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