Boiada em véspera de estouro

picture (17)A propósito da penitência de ter visto coisas, a dor não está em precisar contar. Mas em ter visto. E descobrir como se repetem. Conhecer enredos de histórias e finais de filmes já vistos é doloroso. Por saber que falsos heróis e falsas heroínas morrem no fim.

Vendo a multidão passar, sei que de nada adianta avisar que o caminho leva a lugar nenhum. Ou que, logo além, há o precipício, o dragão à espreita, o lobo com as fauces escancaradas. As pessoas vão sem pensar. Penso em Euclydes: “segue a boiada vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso.”

E temo, temo mais ainda. Temo o Euclydes vira e nos descrevera: “…de súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo. E a boiada estoura… A boiada arranca.”

A boiada humana está próxima a estourar. Houve um erro de cálculo quando o mundo globalizado pensou poder acordeirar pessoas. Cordeiros não pensam, não refletem. Nem a boiada, que segue mansa ao matadouro. Mas tudo pode acontecer, “nada explica, às vezes, o acontecimento.” O estouro da boiada pode ser causado pelo “incidente mais trivial – o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-se embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e moroso. E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los.”

Tenho visto a boiada passar. E temo o estouro dela. Pois sei como será depois. Euclydes contou-nos: “Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas. Abatem-se, apisoados, os pousos, ou esvaziam-se, deixando-os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se despenha a arribada – milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida.”

Diz-se que o mercado se transforma em lugar de construção de cordeiros. As pessoas tornam-se rebanhos, obedientes, dóceis. Pois o mercado como que lhes rouba a capacidade de refletir e agir. Cordeiros não têm individualidade. Mas o estouro de boiadas acontece por incidentes triviais: um tiro, na Primeira Guerra; Rosa Parks, recusando-se a sair de um ônibus e fqazendo explodir o movimento mundial pelos direitos civis.

A boiada está prestes a estourar. Intangível, há uma dignidade interior nas pessoas que – dia a mais, dia a menos – rompe couraças e acende feito chama. Como um palito de fósforo em caixa fechada, um queima o outro. E vem a explosão. É inevitável. Pois as pessoas não mais suportam essa imposição de vida que não leva a lugar algum. A depressão é coletiva. Por enquanto, o excesso de festa consegue distrair a maioria. Mas, após todo Carnaval, há uma quarta-feira de cinzas. Então, os restos ficarão abandonados no piso dos salões. E nada terá sobrado de nossas “roças tão penosamente cultivadas”.

Há reses espantando-se, na manada que caminha em direção ao matadouro. Não quero e nem posso ver esse novo estouro de boiada. Já vi outros. Não gostei. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins)

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