Civilização rural

RuralComeça a falar-se, cada vez mais insistentemente, em uma “civilização rural”. Trata-se, na verdade, do reconhecimento da falência das cidades, da tragédia da urbanização em todas as partes do mundo. A estupidez humana é imensurável, quase infinita. Tudo se repete, como se o antes não existisse e o ser humano iniciasse a sua caminhada apenas a partir de cada geração. Os mesmos erros, as mesmas tragédias, as mesmas tolices, em paralelo a pretensões ilimitadas e a escolhas também infinitamente tolas.

Veja-se que, ainda hoje, falamos em modernidade como algo que está apenas acontecendo. Ou em pós-modernidade, em referência ao que já ocorreu. No entanto, moderno é conceito que nos vem da Alta Idade Média. Ora, o século XII foi chamado de “seculum modernum”, pois se referia a algo de seu próprio tempo. Logo, moderno é o “agora”, o “há pouco”, o recente. Quando se extingue, deixa de o ser. Por isso, nada há de mais antigo do que a sexualidade humana, embora os tolos acreditem que seja atual tratá-la como se fosse algo novo, apresentando até mesmo a pornografia como descoberta “de agora”. O advérbio latino é “modo” – significando o atual, o recente – o que nada tem a ver com moda. Pode haver modismo na modernidade, mas modernidade não é modismo. Há, nela, um atrito entre o atual e o antigo, uma busca de síntese nem sempre encontrada.

Essa busca de uma “civilização rural” está se tornando uma aspiração “moderna”. E, no entanto, é antiga. Há, pois, o círculo, o fechamento dele para se reiniciar, como a idéia do eterno retorno. E a ironia é que, como bobos alegres, repetimos o passado como se estivéssemos criando algo inédito. Ora, rústico era, antes, o morador da zona rural, em oposição ao homem urbano, morador da urbe. Este seria o civilizado e aquele, o grosseiro, quase bárbaro. Agora, buscamos, no rústico, a beleza que se perdeu na urbanidade mas que se manteve viva numa cultura rural. Quantos não deixam suas casas e apartamentos urbanos, por um pequeno sítio ou chacrinha na zona rural? Quantos não estão fugindo dos grandes centros urbanos, para se recolherem em cidadezinhas simples e pacatas do interior?

As cidades nasceram como necessidade de socorro mútuo, de famílias – morando próximas umas das outras – que se auxiliavam diante do perigo. Este, portanto, o perigo, não estava entre eles, mas vinha de fora. Quando se criaram muros e cidadelas, isso foi proteção para os moradores que buscavam uma segurança comum. O inimigo estava atrás dos muros. Esse, ainda agora, tem sido o espírito da criação de condomínios que, no entanto, sofrem de um mal genético, irreparável: condôminos nem sempre são amigos entre si, não se preocupam com o mútuo socorro, coexistem sem conviver, quase sempre estranhos num grande espaço que se fragmenta em outros pequenos casulos. As cidadelas antigas foram invadidas quando seus moradores passaram a brigar entre si, abrindo flancos para o inimigo externo. Ocorreu a inversão, que os sábios perceberam: o perigo vem de dentro, está dentro. E, com ele, o vírus da destruição.

Nesse meu tempo de recolhimento e de juntar fragmentos da memória, entristeço-me e tremo ao confessar que não consigo mais amar a Piracicaba que aí está. A doçura de uma Noiva da Colina se transformou na brutalidade de uma amazona insaciável, brutal, empedernida. E que não se fale em progresso, pois o que está acontecendo, novamente, é um inchaço, a formação de um monstro feito em laboratório. Esta se tornou uma cidade cuja alma tem sido sepultada – mas não morta – pela ganância, pela ambição, pelo desrespeito, pela falta de solidariedade. Logo, não é mais uma cidade, mas um aglomerado urbano. Não posso amar o desrespeito, não posso amar a mediocrização, não posso amar a exploração do belo pelo feio.

A cada página das memórias de minha terra que escrevo, choro por dentro. E choro nos olhos. Parece-me estar escrevendo um réquiem. E a dor aumenta quando vejo movimentos, no mundo todo, tentando fazer ressurgir uma civilização rural, sagrada no seu espírito criador. Não se trata de retrocesso, mas busca da sabedoria perdida, a conciliação da ciência com o sagrado. Por aqui, nesta terra abençoada, semeiam-se maldições. Em outros lugares, menos privilegiados, vai-se em busca de bênçãos. Dói demais. Bom dia.

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