Conversa de velório

VelórioDepois de um certo tempo, os velhos amigos acabam se encontrando apenas em ocasiões especiais. Em velórios, especialmente. De quando em quando, vai morrendo um. E lá estão, os amigos, constrangidos e desanimados no velório.

Ninguém fala nada, mas a interrogação angustiada está no ar: “quem será o próximo?” É uma tristeza. E, durante velórios, o pouco de bom que existe é ficar atualizando as conversas, que deixaram de ser muitas. É outra tristeza.

Em primeiro lugar, já não se pode perguntar pela mulher do amigo, pois nunca se sabe quem ainda está casado. “E os filhos, como vão?” – é a primeira pergunta. E lá vem o discurso sobre os filhos, o que fazem e não fazem, se estão casados, se já se formaram, se eles têm filhos. A conversa fica lenta, pois, mesmo sendo os melhores do mundo, os filhos sempre dão problema. Alegrias, muitas; mas problemas sempre.

Depois de certa idade, os pais são unânimes, especialmente em conversa de velório: “Filho enche o saco!” – um cansaço de quem vê a idade chegando, os amigos morrendo, a monotonia da aposentadoria. Mas, como já há filhos casados, então a conversa, inevitavelmente, passa para os netos. Daí, a alegria é total. (Tenho insistido nisso: com netos, a história é diferente. Ao invés de educa-los, os avós os deseducam, e isso é uma delícia).

Como, porém, os velórios costumam ser longos, o morto vai sendo esquecido. E os velhos amigos passam a outras conversas, agora totalmente deprimentes, que parecem obsessivas: “Estou com problema de próstata …” – diz um. E o outro: “Você tem sorte, pois, além de próstata, estou com artrite… O terceiro: “Pois eu estou pior do que vocês dois: problema de próstata, de artrite e de vesícula”. Começam, então, a troca de receitas e a indicação de médicos.

“Há um novo remédio para próstata que é uma beleza, acaba dispensando cirurgia …” Quanto à vesícula, diz um, isso se tornou brincadeira, com a operação com raiolaser.

E há, como não podia deixar de ser, a questão da virilidade. “Eu estou em forma, mas me cuido …” – fala um deles. E receita um misto de marapuama com guaraná. “Melhor mesmo é catuaba …” – fala outro. Mas um terceiro explica que cápsulas de alho com vitamina E são um santo revigorante.

E a pressão arterial? Ah! todos tem os seus remédios, fugindo, porém, dos que causam frouxidão. “O melhor mesmo é comer maçã…” – um explica. E, assim, o velório prossegue, o morto, um velho amigo, esquecido e repousando em paz.

Quando termina, os velhos amigos despedem-se: “Até a próxima …” Ou seja, o próximo velório. E bom dia.

Publicado originalmente em 3/04/92 em Tribuna Piracicaba

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