“Desgraça feliz”

pictureQuando ouço nossos políticos dizendo-se otimistas apesar da crise mais financeira que assola o mundo, fico apreensivo. Aliás, a crise é mais moral, infinitamente mais moral do que econômico-financeira. O mundo, na verdade, perdeu a vergonha na cara, trocando a ordem moral pela ordem do mercado.

Cada vez que ouço falar em otimismo por parte dos políticos, reporto-me à saborosa leitura do livro “A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis”, da Lilia Moritz Schwarcz. É obra monumental. À época, quando o li, deixei de todas as outras leituras para saboreá-lo. Foi viagem empolgante.

Para construir a obra, a autora usou como epígrafe um poema imortal de Voltaire, no qual o filósofo lamenta a tragédia de Lisboa, incêndios e terremotos que a destruíram em 1755. Indignado – “Lisboa está destruída, e dançam em Paris.” – Voltaire investia contra os indiferentes, “ vós, que proclamais: tudo está bem.” O livro não conta, mas foi após aquela tragédia que Voltaire criou o “Cândido”, a sátira que, ridicularizando o “tudo bem”, fulminou, também, o otimismo e os otimistas. Em Lisboa, falava-se em “desgraça feliz”, pois, entre a multidão de mortos, não se encontravam membros da realeza, os nobres, que escaparam por sorte. Como a elite sobreviveu, aquela foi uma “desgraça feliz. Voltaire, no “Cândido”, satiriza o otimista, os óculos cor-de-rosa com que se vê o mundo, a conclusão quase obscena: “Vivemos no melhor dos mundos possíveis.”

Lembro-me disso ao ouvir nossos ministros declararem-se otimistas diante do caos universal. Há que se ter cuidado com pessoas assim. São as que deixam tudo nas mãos de Deus ou que aguardam a intervenção dos céus. Ou, então, que esperam ou propõem a providencial chegada de líderes capazes de criar esse “melhor dos mundos possíveis”. São as que sempre “dançam em Paris”; agora, depois de “dançarem em Washington”, procuram outros bailes. Dançam, alegres com a “desgraça feliz”, sem darem-se conta das legiões humanas famintas, miseráveis, sem destino, sem futuro. Como, falando de guerra, alguém pode dizer-se “sempre otimista” e não enxergar o desfile de desgraças? Ver o mundo apenas pela óptica econômica é rebaixar a raça humana ao que de pior ela tem. Não pode haver otimismo – a não ser o religioso, incluindo fanatismos fundamentalistas – na morte e diante dela. Ora, nem o “Cândido” teria a maluquice otimista, ou o otimismo louco, de se ver, hoje, no “melhor dos mundos possíveis”.

As Bolsas de Valores dos “mercados” ficam “otimistas” conforme os humores dos ministros de fazendo e presidentes de bancos centrais, ainda que com guerras matando inocentes e destruindo nações. Os fabricantes de armas continuam otimistas. Há otimismo em todos os que podem ter algum lucro com a guerra ou com especulações financeiras. Ora, o sinônimo disso é imoralidade. Portanto, devem causar preocupação governantes “sempre otimistas”. Com o quê, por quê? Seria a repetição da “desgraça feliz” de que falavam os sobreviventes da tragédia de Lisboa? Desgraça de uns, sorte de outros?

Seja o que for, um governante otimista preocupa. Mas não se busque no pessimismo a resposta ao otimista. Não é. A oposição a esse otimismo diante da “desgraça feliz” é a indignação. Otimistas vêem até na desgraça a vontade de Deus. O homem indignado sabe que atos humanos se resolvem com decisões também humanas. Voltaire não respondeu, aos otimistas, com pessimismo, mas com indignação. Essa, que já está nas ruas do mundo. Bom dia.

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