Quando casar, sara

SararAntes de iniciar, devo confessar as confusões que faço entre José Gomes Temporão, o ministro da Saúde, e José Ramos Tinhorão, um dos nossos mais ilustres historiadores musicais. E deve ser besteira minha, pois Tinhorão com Temporão não dá sequer uma rima rica. Confusões que tais são as que, na verdade, me levam a lembrar do dia em que um jovem advogado saiu em minha defesa com palavras que considerei ofensivas, mas que, para ele, eram altamente elogiosas. Foi, como quase sempre, num processo jornalístico. O jovem advogado, saindo em minha defesa, falou ao meritíssimo doutor juiz: “Ele é um velhinho gagá, excelência, gente boa….” Para ele, ser gagá era ser generoso. Sei lá o que, por sua vez, o juiz entendeu, mas o fato é que fui absolvido.

Pois bem. Se eu confundir, ao longo da escrevinhação, Tinhorão com Temporão, será coisa de gagá e peço releve-me o generoso leitor, pois quero me referir ao ministro da Saúde, o Temporão. Simpatizo com ele, apesar do nome que me confunde. E, agora, passei a considerá-lo um sábio à antiga, homem que alia o conhecimento científico à milenar sabedoria popular. Pois vejam que ele aconselhou a população a – para combater a pressão arterial alta e doenças crônicas – também fazer sexo seguro. Não é uma delícia de conselho, um manancial de sabedoria antiga?

Ora, lembro-me – ainda dos tempos de calças curtas – de ouvir os mais velhos, pais, parentes – em especial tios e tias – com seus conselhos pacificadores quando a criançada ou os adolescentes de queixavam de algum mal: “Deixe de manha, quando casar, passa.” Se menina chorasse de dor de cabeça, lá vinha o aviso: “Quando casar, sara.” Se o garoto urrava de raiva ou queria explodir o mundo, repetia-se a cantilena: “Quando casar, sara.” Levou tempo, confesso, para entender, a dificuldade infantil em relacionar o raio do casamento com dores e angústias adolescentes e juvenis. Por que era preciso casar para o faniquito passar? Para mim, tratava-se de alta filosofia ou de enganação familiar. Agora, porém, o Temporão – acho que acertei o nome – dá indícios de motivações científicas.

De qualquer maneira, foi um aprendizado da infância e adolescência. Aos poucos, comecei a aliar coisas, a fazer associações de idéias. Pois, além do refrão “quando casar, passa”, passei a ouvir cochichos, especialmente entre mulheres, quando uma mocinha ficava agitada: “Essa menina está precisando de homem…” E, quando a fúria do garoto se acentuava, um pai ou um tio falava, meneando a cabeça: “Esse menino está com falta de mulher…”

Como tudo no mundo se transforma, as expressões foram adquirindo outros formatos, até mesmo por mudanças sociais. Acho, sei lá, que pelos 1970, já não se falava tanto em “precisar de homem, precisar de mulher; de quando casar, sarar”, aquelas coisas. Foi com o tal do “liberou geral” que segredos e mistérios desapareceram e acabou-se o que era doce: com sexo à vontade e liberado, reclamar de quê? Foi um novo mistério que o Tinhorão – desculpe-me, o Temporão – poderia ter explicado mais abertamente, já que tocou no assunto.

Veja-se que já não mais se precisa casar para a coisa passar. E se sexo ajuda a diminuir a pressão arterial, como é que se explica o fato de haver tanta sexualidade à solta e cada vez mais gente com pressão alta? Talvez – mas também não sei – algo se explique com novas expressões, como, por exemplo, “mal-amada” e “mal-amado”. É fácil de comprovar: pessoas secas, neurastênicas, estressadas, amargas, irritadas, delas se diz que são “mal-amadas”. No escritório, se um rapaz vê o colega irritado, já tem explicação: “Essa noite você foi mal-amado, hein, cara?” E se é a colega, toda nervosa irrequieta, a outra tem certeza de matar a charada: “Foi mal-amada, né?”

De alguma forma, porém, o Temporão confirmou a sabedoria dos antigos que, no entanto e pelo visto, tinham mais arte em relação ao assunto. Para baixar a pressão arterial, sexo pode até atrapalhar, trazer mais ansiedade e inquietação pois, fazer por fazer, qualquer um faz e quase todo mundo está fazendo. Saber fazer é outra coisa. E é esse saber que resolve tudo. Pelo visto, a minoria da população, que tem pressão estável, sabe o que está fazendo.

Aqui entre nós: o assunto está mais para comentário artístico do Tinhorão do que para orientação médica do Temporão. Bom dia.

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