…e Cerinha se autoatropelou

Meu amigo Cerinha – o advogado, ex-bancário banespiano, jornalista, intelectual e companheiro de todas as horas, Roberto Antonio Cêra – poderia entrar na minha galeria de tipos inesquecíveis. Mas ele está vivo, muito vivo, felizmente, embora todo estropiado. Em sendo assim, digo que o Cerinha está catalogado entre os meus tipos e amigos preferidos. Igual a ele, é preciso fazer outro com outra forma, pois a dele se perdeu.

Nos velhos e horríveis tempos da ditadura, o Cerinha coordenou uma página, em O DIÁRIO, que marcou época e deu muito dor de cabeça pela ousadia, coragem e audácia dos seus tantos participantes. Cada um tinha o que falar, contra o que reclamar. Os comentários do Cêra – ácidos, bem-humorados, críticos, sarcásticos, irônicos, inteligentes – o transformaram naquilo que chamei de “Nosso Stanislaw Ponte Preta”, o nosso Sérgio Porto. Quem se desse ao trabalho de recuperar aquelas páginas, conseguiria, hoje, fazer um livro verdadeiramente histórico do que foi a resistência bem humorada e audaciosa. Formamos o “Pasquim Caipira”. Deixou saudade.

Há, porém, uma faceta do Cerinha que se enquadra perfeitamente na Lei de Murphy. Para ele, “se uma coisa tem que dar errado, com toda certeza dará errado.” Se havia bomba para cair, era inevitável: caía na cabeça dele. Até um chute espetacular ele recebeu, em plena praça pública, de nosso companheiro de trabalho, o falecido Nadir Roberto. Nadir, hormonal e mau-humorado, precisava chutar alguém. E chutou o Cerinha. Talvez, por ele estar mais próximo.

É possível alguém se autoatropelar com o próprio automóvel? Qualquer pessoa de bom senso dirá que não. Mas com Cerinha é possível. E aconteceu. Pois lá veio, ele, todo lampeiro de seu passeio diário ao shopping – onde ele vê moças bonitas, olha com os olhos e lambe com a testa – e parou à frente de sua casa. É uma descida. Ainda mais lampeiro, desceu do carro, sem perceber que se esquecera de freá-lo. E, pela lei física, qualquer carro sem freios na descida, desde, ok? Pois é. Mas só o Cerinha não sabe disso. Ou, com a idade, se esqueceu. E lá se foi o carro ladeira abaixo.

Louco de pedra, o Cera saiu gritando e chamando o carro: “Para aí, meu. Pare de descer.” E o carro, obviamente, não ouvia os apelos desesperados do meu amigo. Mas ele insistiu e insistiu: Oi, carro. Quer parar? Sou eu que estou mandando.” E o carro continuou, aumentando a velocidade. Ele implorou: “Sou seu dono, trato bem de você, não faça isso comigo, pare, pare.” E corria atrás. Até que o carro parou: bateu num poste. Mas bateu justamente no momento em que o Cerinha conseguiu entrar no banco dianteiro, na certeza de conseguir conter a besta desenfreada. Resultado: ficou preso dentro do carro, atropelando-se a si mesmo.

Hoje, o coitadinho de meu amigo – que é celibatário empedernido – está lá, choramingando seus dodóis, todo enfaixado, com fraturas nos quadris. Espero que sare logo, mas que aprenda a lição: lugar de velho é como o de gato, em casa. Não tem nada que ir ao shopping, ficar todo assanhado. Espero que o meu amado amigo tenha aprendido a lição. Mas fico com receio de que ele tome algumas decisões radicais. Como ele, na infância, foi coroinha, bem que ele poderá buscar asilo num mosteiro, num convento. Ou ir para o Lar dos Velhinhos onde o Jairo Mattos cuida bem especialmente de idosos que ainda gostam de apostar corrida com o próprio carro. Até que pode ser uma boa: no Lar dos Velhinhos, o Cerinha e o Jairo conversando sobre os bons tempos e falando mal do Lula. Cuide-se, ô, cara. E bom dia.

1 comentário

  1. Marisa Bueloni em 25/11/2012 às 13:39

    AHAHAHAHAHAHAHAH!… Que texto divertido, Cecílio! Oi, Cêra, cê esqueceu de puxar o freio de mão, lindo?… Deus Pai! E acabou, na visão do nosso bravo diarista que dá bom dia, "atropelanndo-se a si mesmo". Bom, não é o caso de deixar de passear no shopping, vai… Continua passeando, cara. Já morar no Lar, até eu tentei. Não deu. Cecílio, seu texto é impagável, posso ver nosso herói ladeira abaixo, atrás do carro… Desejo melhoras ao nosso Cerinha.
    Deus seja louvado! Abraços da Marisa Bueloni

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