Os 70 anos de um menino grande

A vida tem segredos irreveláveis. Talvez, seja esse o fascínio que ela exerce sobre o homem, a impossibilidade de não saber, a incapacidade de decifrar. Como pode, alguém, chegar aos 70 anos de idade, com a sabedoria de um septuagenário, mas com alma, espírito de um menino, e com a sensibilidade de um jovem que ainda se encanta com a vida, maravilhando-se com novas descobertas?

Pois no 12 de setembro, esse menino grande e jovem encantado com a vida e o mundo completa 70 anos de idade. E estou entre os muitos de seus amigos que se rejubilam com isso e que, antes de discutir o segredo, preferem continuar apreciando-o. É uma pessoa humana admirável e nem é preciso saber quem é, o que faz ou o que fez, qual a sua contribuição ao mundo ou a sua participação na comunidade, para se deixar imantar pela grandeza humilde que ele transuda, como se lhe saísse dos poros. Quem o conhece, sabe que estou falando de Roberto Antônio Cêra. Mas quem não o conhece, apenas de vê-lo passar ou de estar a seu lado por alguns minutos, saberá lá estar o idoso com sabedoria septuagenária, a criança sempre feliz, o jovem com idéias e sonhos ainda a realizar.

Saudar, nesta página eletrônica, o Cerinha me dá o prazer jornalístico que poucas vezes se tem numa atividade que nos leva a coexistir com tantos problemas, desencantos, até mesmo um certo cansaço da humanidade. Tenho o privilégio de conhecer e de ser amigo do Cerinha desde os tempos de calças curtas, crianças ainda no curso ginasial. A marca de sua personalidade, que se tornou a sua própria história, sempre foi a da solidariedade. O Cêra é, antes de mais nada, um solidário. Mesmo quando está distante, sabe-se que ele está presente. E sou testemunha, nos duros anos da ditadura militar – quando muitos e muitos dos que se diziam amigos cederam às tentações do poder ou acovardaram-se com o barulho dos coturnos policialesco – da solidariedade e amizade fraterna do Cerinha. Pois ele, funcionário do Banespa – e, portanto, sujeito, àquela época, aos humores e vaidade dos poderosos – nunca hesitou em estar ao lado de minhas lutas, sendo vítima também de processos, de injustiças, de perseguições pessoais. O menino grande sempre teve a coragem do homem sem temor.

70 anos, pois, completa esse piracicabano que ama sua terra como poucos a amaram ou o fazem. Nas artes, na cultura, nos empreendimentos sociais verdadeiros, na imprensa, no cotidiano de Piracicaba, a presença de Roberto Antônio Cêra foi como uma tatuagem na pele da cidade. Ele e Piracicaba confundiram-se ao longo destas décadas, ainda que políticos, novos ricos e pragmáticos mais jovens pouco saibam ou se interessem em saber quanto de amor e de dedicação o Cerinha dedicou e dedica a esta terra. Seus artigos e comentários em jornais refletem sua inteligência refinada, humor saboroso, estilo privilegiado.

Ele é, ainda, uma das memórias vivas de Piracicaba. Ser seu amigo, é-me, a mim que me aproximo dos 70 anos, um privilégio e tem sido a graça de conhecer um dos segredos que não se entende: o idoso com sabedoria dos anciãos, mas com alma e espírito da criança, mistério que faz esse homem ter, ainda, a vitalidade espiritual de um jovem. Poder cumprimentá-lo de público é, também, fazer, em nome de muitos, um agradecimento: obrigado Cêra, por você participar de nossas vidas. 12 de setembro é, para seus amigos, reconhecer haver um dia da solidariedade. Nele, nasceu Cerinha, o homem bom. E bom dia.

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