Escrito nas estrelas

Quando não se entende, fica-se imaginando. E inventando. E fazendo de conta. Por jamais ter entendido o como e o porquê das coisas, início e fim, finjo saber, inventando. É tentação apenas circunstancial, pois aprendi a não mais me inquietar com o que jamais haverei de entender. Ou de compreender.

Um dia, fiz de conta ser, a alma humana, universal, uma só alma, imensa, como fosse um cobertor. Quando nasce, cada pessoa vai lá, pega um pedacinho da grande alma, coloca-o dentro de si, vive com ela por algum tempo e, ao morrer, devolve a porçãozinha emprestada. Assim, haveria uma só alma para todos e o pedaço emprestado, cada vez mais ansioso para retornar. Pois viver num corpo é bom.

Esse faz de conta serenou-me para aceitar e compreender essa unidade humana universal, o homem sendo o mesmo onde quer que se encontre, seja quando tenha existido, tirante os contextos. As lágrimas são as mesmas. E os sorrisos. Seja aqui, seja no Tibet; seja hoje, seja quando saiu das cavernas – o homem chora pela mesma dor. E ri das mesmas alegrias. E cria sonhos lindos e vive de esperanças parecidas: ser feliz, reencontrar um paraíso, ter um lar, filhos.

Mais do que viver no mundo, vivo em Piracicaba. Mais do que brasileiro, sou piracicabano. E minha alma, no entanto, é ínfima parte daquela imensa alma universal. Mais antiga do que esta terra, mais antiga do que este país, pedaço de alma colhido em algum lugar do Oriente, acho que numa tenda das areias do deserto, alma de beduínos errantes, que descansaram em oásis, que ficaram ao relento olhando estrelas dos céus, cavalgando em corcéis negros mas, também, em raios de luar. As estrelas falam. E a alma ancestral sabia disso: tudo está escrito nas estrelas, “maktub”. Da própria alma, ninguém foge.

Não sei mais se sou fatalista, se acredito ou não em destino, se creio em livre arbítrio. Sei, apenas, que, realmente, há mais mistérios do que supõe essa nossa vã filosofia. E que nem sempre é possível querer, desejar, exercer a própria vontade. A vida leva, a vida empurra, as estrelas falam. Parece até que a voz daqueles pedaços de alma, retornando à sua origem única, determina caminhos, impele a prosseguir, a dar continuidade. Então, como uma corrida de bastão, continua-se de onde o anterior parou.

Volto a pensar nessas coisas após algumas andanças por aí, ainda solitárias, vendo lugares desta terra que já parecem esquecidos, sentindo o pulsar de almas como que querendo irromper do solo. Entendo, enfim, que estava escrito, que a caminhada fora definida antes e que, por isso, não conseguir fugir, ir-me daqui. Tentei, Deus é testemunha de que tentei desistir, parar. Tentei até deixar de amar. E não consegui. Foi-me impossível sair do campo de batalha. Minha vontade não prevaleceu. Estava escrito nas estrelas ser o único caminho. Apenas isso.

Rendi-me, insistindo em andar por aí, revendo, tentando manter vivo o que ainda sobrou. Fiquei olhando as águas do rio. E entendi que, na verdade, apenas carrego o pedacinho de alma que me foi emprestado quando nasci. Era o pedacinho de Pedro Krahenbuhll, de Jacob Diehl Neto, de “Nhô Lica”, de Lydia de Rezende, de meu pai, de tantos e tantos homens e mulheres que amaram Piracicaba até sangrar o coração. E me consolo, pois também está escrito, “maktub”: após a grande luta, leite e mel correrão de um lugar especial. Ali, logo abaixo do salto, à beira do rio. Bom dia.

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