E ele ainda faz chover

Há menos de dois meses, estive em Salvador e Recife. Renovei-me em minha antiga convicção de que um dos grandes problemas dos paulistas ainda é o de olharmos o Brasil pela óptica de São Paulo. Não somente o povo, mas especialmente a imprensa. É como se nada pudesse acontecer de bom a este país se o referencial não for São Paulo. E, no entanto, é exatamente o contrário. Há um Brasil além de São Paulo, muitos mundos diferenciados, povos que nada têm a ver com a história paulista que ainda tenta sobrepor-se à do País. A imagem que a classe mais conversadora de São Paulo faz, por exemplo, do presidente Lula é completamemente diferente do que ocorre no restante do país, especialmente no Nordeste.

Lembro-me de, em 2004, ter escrito uma crônica a respeito de uma socióloga piracicabana que estava no Piauí quando começou a chover. Em poucos dias, tudo verdejou. Eu já vira esse espetáculo com os próprios olhos, no milagre de, esturricada, a terra enverdecer após apenas três dias de chuva, pronta para entregar frutos. É quando o retirante deixa as cidades e retorna ao lugar que ama: a terra, a da “Asa Branca”, onde, por “falta d´água, perdeu o gado”. No Piauí, a socióloga ouviu as gentes contando quem fez chover.

O povo move montanhas. Sua crença constrói o mundo. Quando é fé coletiva, não há razão humana que a convença do contrário. Mil lendas, mil histórias, mil contos há de homens, duendes, entidades capazes de “fazer chover”. Em todos os povos, contadores de histórias dizem de milagres e milagreiros que “fazem chover”: o casamento da raposa com o rouxinol; a capa de São Martinho; as bombas de São João; as decisões de São Pedro; a dança dos índios. “Contos das chuvas” dão o que pensar por sua singeleza comovente.

Uma das mais belas histórias, em meu entender, é a do homem que, tido como santo, foi levado pelo povo da aldeia ao alto da montanha, onde ficou em jejum e orando. A estiagem trouxera fome e doenças. Não havia mais esperanças, pois tudo se pedira aos santos e aos deuses, e dadas todas as oferendas. No alto da montanha , ficou o homem que faria chover. E, enquanto ele orava e jejuava, o povo orou e jejuou junto. Todos se uniram, homens, mulheres, crianças. Os pensamentos concentraram-se num só desejo: que o homem fizesse chover. E, então, choveu. Sob a chuva e diante do júbilo do povo, o santo homem explicou que ele nada fizera: a fé e a união do povo comoveram os céus, venceram a estiagem, realizaram o milagre.

São comoventes as histórias, contos e lendas sobre a chuva. Caminhando pelo Nordeste, ouvindo o povo e abrindo o coração para suas crenças, descobrem-se delicadezas de alma capazes de, realmente, sensibilizar os céus e provocar maravilhas. A chuva, na terra seca, é milagrosa. Certa vez – no Piauí e na Paraíba – árvores ressequidas, cobertas de poeira, chão esturricado, riachos mortos, vi tudo renascer após apenas três dias de chuvas torrenciais. Foi o verdor de verduras, o reverdecer do verde que se amarelara.

Retorno à socióloga piracicabana que viu chover no Piauí. E ao seu duplo assombro, não pela ordem: primeiro, pelo ressurgimento da vida, das folhas, das flores, dos frutos. E por ouvir o povo contar quem fora o responsável pela chuva. O nordestino, comovido e emocionado, contou à socióloga – levantando as mãos aos céus – o nome do homem que fizera chover: Lula. A chuva surgira como milagre de Lula; o verde da terra reaparecera como graça enviada por Lula; o Nordeste podia ter esperança num homem que cuidará dele: Lula.

Há menos de dois meses, no mesmo Nordeste, ouvi coisas semelhantes do povo, de nossos irmãos sofridos. A esperança, quase religiosa, ainda está em Lula. Como o Padim Ciço, Lula tornou-se mito. Não cá em São Paulo, onde não confiamos sequer no que os olhos vêem ou os ouvidos ouvem. Mas num Brasil simples, ingênuo, crédulo em milagres e, portanto, capaz de conseguir e de alcançar o impossível. Nesse Brasil onde “Lula é o homem que faz chover”, a razão política não tem importância. A versão é maior que o fato. O mito suplanta a realidade.

Lula se vai tornando questão de fé. Logo – como a massa do trigo – quanto mais nele bater-se, mais crescerá. Aos pobres e desgraçados, para realizar-se a visão de Vieira, só falta São Paulo e os grandes centros conservadores transformarem Lula em mártir. Se acontecer, o mar virará mesmo sertão; e o sertão, mar. Bom dia.

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