Piracicaba e a Daslu

Na verdade, a preconceituosa e ignorante grosseria de uma das balconistas da Dazlu, referindo-se a Piracicaba e a piracicabanas, não deveria ter maiores conseqüências. São lições de vida que, pelo menos os de minha geração, começamos a aprender com mestres em sabedoria e dignidade, nas escolas de Piracicaba. Estas, escolas piracicabanas, sempre foram paradigmas para a educação brasileira, ainda que a Dazlu não saiba, pois educação e cultura não fazem parte de seus mostruários e de suas vitrinas.

Lembro-me do que o admirável professor Benedicto Antônio Cotrim nos ensinava, em nossa relação com o mundo e diante de possíveis elogios ou ofensas que nos alcançassem. “Primeiro” – ensinou-nos eles, a seus alunos que ainda hoje o amam – “perguntem: quem elogiou, quem ofendeu?” E completou: “Elogio ou ofensa não têm qualquer importância dependendo de quem o faça. Ser elogiado por um bandido é demérito. Ser ofendido por um canalha é mérito.” Piracicaba e as piracicabanas não foram ofendidas pela Dazlu exatamente por uma única razão: o que é, quem é a Dazlu?

Ora, a Dazlu é um dos símbolos, no mundo, da ostentação agressiva e insensível diante das tragédias sociais que infelicitam os pequeninos. A construção daquele templo de provocação social e de zombaria aos humildes, bem próximo de favelas e de casas populares, dá uma demonstração da irresponsabilidade social dos que acreditam seja a revista “Caras” um dos paradigmas da sociedade brasileira. A Dazlu foi denunciada por graves irregularidades fiscais, por corrupção envolvendo políticos – inclusive a doação intolerável de vestidos à então Primeira Dama do Estado, sr.Geraldo Alckmin – e parentes destes, dos quais a filha do ex-governador foi apontada como intermediária de favorecimentos em bancos oficiais. A dona e o dono da Dazlu, irmãos, foram presos pela Polícia Federal por sonegação e contrabando. Quem é, pois, a Dazlu? O que é?

Piracicaba tem um profundo orgulho cultural de ser conhecida, em todo o Brasil, como a terra de e dos caipiras, os caipiracicabanos. Nós sabemos que essa é a nossa identidade como um estado de espírito, como um bem cultural, bem de raiz que tem fornecido, ao Brasil, os mais notáveis vultos, na ciência, nas artes, na cultura, na economia. Somos herdeiros de Prudente de Moraes, o Primeiro Presidente Civil da República que, chegando ao Rio de Janeiro para tomar posse do nobilitante cargo, foi recebido como “Presidente Caipira” “Caipira de Piracicaba”. E se foi reverenciado, logo depois, como o “Pacificador do Brasil”, o “Santo Varão da República”. A Dazlu não sabe disso, como, também, não o sabem algumas tolas novas-ricas piracicabanas que se deliciam em freqüentar locais da moda, revistas e colunas sociais, na linha mais ridícula do “Dandismo” de Baudelaire, quando o “parecer e aparecer” foram mais importantes do que o “ser”. A Dazlu fez, certamente, referência a essas tolas criaturas, as que acreditaram fosse a Dazlu algo importante. E não é.

O escritor Coelho Neto – uma das mais fulgurantes inteligências brasileiras – apontou, na década de 1920, aquela que, para ele, era “símbolo da mulher brasileira”: Lydia de Rezende, a piracicabana Lydia de Rezende. Aqui os barões plantaram uma cultura de refinamento e de civilidade. A República consolidou os sentimentos democráticos do povo e a fome e o desejo de justiça. Luiz de Queiroz, um caipira de Piracicaba, foi o visionário que permitiu o surgimento da “ESALQ”, esta que é o grande motor da ciência do açúcar e do álcool, fomentadora de uma tecnologia que permite, sim, a milionários e esposas de milionários se darem o direito e o luxo de freqüentarem até a Dazlu. Será que, tomando como exemplo, a Dazlu chamaria de caipira, no sentido pejorativo, esposas, filhas ou netas dos Ometto, Dedini, Silveira Melo, que por acaso passarem por suas vitrinas?

Esta reflexão é, apenas, no sentido de colaborar para ninguém levar a sério a opinião de uma balconista da Dazlu. Se alguém tentou ofender, a pergunta foi feita: “quem falou?” A resposta: “Gente da Dazlu.” Logo, não pode ter sido ofensa. Piolhos, na verdade, não atingem águias. No máximo, voam em asas de águias. Para Piracicaba, o comentário da tola funcionária da Dazlu deve ser entendido apenas como o incômodo de um piolho nas asas de águias.

PS: Há que se não confundir Dazlu com Dazpu, uma instituição carioca, de prostitutas, que, no mesmo ramo, trabalha com produtos comerciais elaborados, produzidos e vendidos por profissionais do sexo.

Deixe um comentário