E o pranto sufoca o canto

Tear dropsTenho pressa, muita pressa. A minha não é, agora, uma luta contra o tempo, pois não acredito possa, ele, ser mensurável, medido. Ou que se movimente. Fica-me mais fácil – até mesmo para viver – ver o tempo como algo imóvel, pertencente à eternidade e, portanto, sem começo nem fim. Não seria, pois, o tempo que passa, mas nós e todas as coisas vivas que passamos por ele. E nesse ir, nesse rodar na mesma rotação da Terra, lá vamos nós desfilando a nossa finitude. Passar pelo tempo, seria, pois, uma caminhada em direção ao fim. Um passeio, porém, formidável, venturoso e aventuroso e tão especial que – para o tempo infinito – criamos a dimensão do passado, presente e futuro. Inventamos.

Tenho, pois, pressa. Pois a minha caminhada pelo tempo vai-me revelando, a cada dia que passa, a reta final da finitude. Logo, antes que acabe ou que a jornada se encerre, é preciso, mais do que nunca, ter pressa. Para realizar sonhos, para fazer o que não foi feito, para rever-se, revisar-se e espantar-me com as próprias lembranças. E recordações. Tenho pressa porque ainda preciso contar, tal e qual velho contador de histórias cuja esperança é poder transmiti-las aos mais jovens, na esperança de que não sejam esquecidas.

Tenho pressa. Quero entregar a Piracicaba – a esta terra à qual dediquei a vida – o máximo possível do que guardei, do que vi, do que recolhi, de imagens e histórias que compõem uma das mais lindas sinfonias que existem, a sinfonia piracicabana. Tenho pressa para concluir esse trabalho, antes que todos estejam cegos e surdos, vitimados por nuvens sombrias e ruídos insuportáveis. Dei o título de “Piracicaba que amamos tanto”, porque são muitos, ainda, que a amam. E para que os que a desconhecem passem a conhecê-la por uma razão muito simples: “Ninguém ama aquilo que não conhece.”

Meu Deus! Como podem, impunemente, ser destruídos tesouros imensuráveis? Como podem ser esquecidas, irresponsavelmente, conquistas e criações esplendorosas feitas por nossos ancestrais? Como podem, dolorosa e dramaticamente, ser abandonados recursos, maravilhas, epopéias, dons especiais, bênçãos magníficas que emolduraram esta terra desde o seu nascedouro? Como foram possíveis tantos desleixos, desrespeitos, irresponsabilidades que minaram um templo de valores especiais, uma história que criou uma cultura diferenciada, a do piracicabanismo ou a da piracicabanidade?

Mexo nos arquivos, remexo documentos, espanto-me com fotografias e postais que registram todo esse encantamento – e aumentam-me a pressa, a ansiedade para concluir o que se me tornou obsessão: a razão de termos amado tanto Piracicaba, os motivos de esta terra ser identificada como o Ateneo, a Atenas Paulista, a Pérola dos Paulistas, a Florença Brasileira, essa Noiva da Colina que vive o paradoxo de se tornar viúva antes de ter-se casado.

Vejo os bondes, a construção da Paulista, a imponência de nossos colégios centenários, a epopéia da ESALQ, os peixes enormes recolhidos das águas de um rio fascinante antes de ser violentado; vejo uma cidade sem nenhum edifício vertical; as  primeiras jardineiras; o pioneirismo em energia elétrica, no serviço de água, em telefonia, a existência da primeira indústria paulista, dos Irmãos Krahenbuhll; deparo-me com a estatura de nossos ancestrais, de barões e de republicanos. Vejo tudo isso em meus arquivos organizados há quase 60 anos, recuso-me a tê-los apenas para mim. Tenho pressa para entregá-los às novas gerações que poderão – assim espero – entender porque “amamos tanto”, porque “a adoramos”, porque ela foi “cheia de flores, cheia de encanto.”

Tenho presa, pois preciso, ainda, cantar minha terra, nem que seja o meu último canto. Todavia, o coração aperta, a garganta se fecha, os olhos lacrimejam, há um pranto que, vindo da alma, traz sombras ao meu canto. Não é mais o receio de não o  conseguir. Mas é o lamento – vindo-me das entranhas da  alma – ao constatar, com tanta clareza, a devastação feita a um verdadeiro sacrário de encantamentos, essa Piracicaba de meu, de nosso amor. O pranto quer sufocar o canto. Permitam-me, porém, os céus, conseguir invertê-lo: que o canto prevaleça sobre o pranto.  Bom dia.

2 comentários

  1. Delza Frare Chamma em 17/02/2014 às 14:08

    Que crônica linda, Cecílio!!!! Não há piracicabano que consiga chegar ao fim da leitura com os olhos secos. Levou-me de volta a um tempo em que não posso mais voltar. A piracicabana exilada parabeniza o amigo e autor e se une à saudades da velha Piracicaba.

  2. Valdir J. A. Raimundo em 20/02/2014 às 08:31

    # Emocionante!! Parabéns Cecílio!

Deixe um comentário