E o vento levou…

PassatempoNão costumo reler artigos, crônicas, livros meus depois de publicados. Não apenas por já não mais me pertencerem, mas, especialmente, por receio, medo, algo assim. Se reler, haverei de mudar o que foi escrito. Ou corrigir, encontrando erros que me ruborizam. E, além disso, certo espanto, estranhando tenha sido eu mesmo o autor de pensamentos, imagens, avaliações. Como Guimarães Rosa referiu-se à vida, escrever também é perigoso. Muito perigoso.

No entanto, pressionado por atropelos emocionais diante dos 50 anos desta coluna, vi-me como que obrigado a algumas releituras. E uma descoberta, para mim importante e sólida: as transformações – para o bem ou para o mal – acontecem passo a passo, de degrau em degrau. Aquilo que era vai deixando de ser; o que não era começa a ser. Quando se pergunta “cadê o toucinho daqui”, descobre-se que “o gato comeu.” E tudo o mais, o vento levou…

Reli-me – décadas atrás – preocupado com programas de televisão. É um veículo demasiadamente poderoso para ter adquirido liberdade tão completa que passou a beirar a licenciosidade. A tevê deu-se licença e permissão para agir e atuar conforme seus próprios critérios. E, a pouco e pouco, ganhou espaços tirânicos. Recordo-me de – também há décadas – ter-me dado conta de quem era a pessoa mais poderosa do Brasil. O nome dela: Janete Clair. Pois, no horário de suas novelas, o Brasil todo se sentava, emudecido, passivo, submisso.

Uma das poucas novelas a que assisti foi “Gabriela”, acho que nos 1980s. Depois, tentei alguns capítulos daquela em que se queria saber quem matou Odete Roitman, interpretada pela Beatriz Segall. Recordo-me de certa manhã – ensolarada, brilhante, translúcida – ter perguntado, ao café da manhã, à minha mulher: “Quem matou a Odete Roitman”. E, então, percebi o absurdo, a banalidade de – num dia de tantas belezas naturais – estar pensando em um capítulo de novela.

Nunca mais vi nada. Ainda recuso-me a ver certos programas. E constato, cada vez mais agoniadamente, a agressão permanente, constante, ininterrupta em relação a alicerces fundamentais de nossa vida em sociedade. Caem pedras após pedras, ruem edifícios, criam-se terras arrasadas. E tudo – como progressivamente aconteceu – em nome de uma liberdade de expressão que é limitada pelo dever, pela lei, pela responsabilidade.

Não vejo, mas ouço conversas e leio em jornais e revistas. Agora, pelo que me informo, ainda se insiste nas relações homossexuais. Por quê, para quê? Tais relações existem, sempre existiram. Mas – da mesma forma como as heterossexuais – eram de caráter privado, sem ostentação ou propaganda. O erotismo é uma arte refinada que rejeita a grosseria e a vulgaridade. A explosão pornográfica e pornofônica a nada conduz a não ser à brutalização do ser humano, especialmente a infância e a juventude indefesas. E danem-se os que me lerem sob a óptica de um moralismo barato. Quando nos convencermos de que a vida está à espera de uma “ética da estética”, compreenderemos a estupidez que estamos promovendo e alimentando.

Essa estupidez nos levou a matar as histórias da carochinha, a repudiar cantigas infantis, a achar que “o boi da cara preta” faz mal às crianças, assim como o “lobo mau”. E, no lugar das fantasias infantis, impusemos a violência, a pornografia, a vulgaridade. O feminino, desde os 1960s, lutou por sua libertação, negando-se a aceitar a mulher como simples objeto sexual. E, hoje – muito e muito mais do que ontem – a mulher se apresenta como simples pedaços de carne expostas à gula e à cobiça dos tolos.

Isso tudo caminhou passo a passo. Quase ninguém se incomodou. E a avalancha destruidora cai da montanha sem que, pelo menos por ora, nada pareça poder contê-la. Na verdade, na verdade, “nada há de novo sob o Sol”. A não ser a intensidade. Foi assim, ao longo dos séculos, que desapareceram impérios. Quem viver verá se houve sobras daquilo que o vento levou. Bom dia.

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