Faxina estética

picture (19)Como se diante de uma iluminação, vi-me, há algum tempo, perguntando-me: não estaria, a explicação para tantos desatinos, no fato de não mais haver “coisa feia”. Pois a “coisa feia” sumiu. Pais, professores, mestres, o distinto público em geral, a galera do Corinthians, o PT e o PSDB, ninguém mais se preocupa com isso, como se o mundo estivesse recoberto por uma auréola de belezas sem par. Ninguém mais fala em “coisas feias”: criança com dedo no nariz, gente arrotando em público, casais copulando nas ruas, gritos espetaculares, buzinas enlouquecidas, lixo nas calçadas. Não há mais “coisas feias”. Nem assaltar cofres públicos.

Ora, a nova mania nacional é falar em fazer-se uma “faxina ética” no país. Antes, era “passar o Brasil a limpo”. Agora, a faxina. Fico atordoado. De qual ética falam? A dos traficantes, dos políticos, dos bandidos, dos bicheiros? Tantas éticas passaram a existir que ando com medo delas e dos que se dizem éticos. Por trás deles, enxergo e cheiro a “coisa feia”. Delinqüência e delinqüentes são casos de polícia, objeto da lei, do direito, não mais da moral. Políticos inventaram que basta ser legal para ser moral. Mas não é assim. Isso é “coisa feia”. Mas ela desapareceu. E, nesse sumiço, pode estar a raiz de nossos infortúnios.

Parece-me que o gemido da humanidade é de agonia diante da crise da beleza, do belo soterrado. Fazendo de conta que nada mais é feio, trazemos o horror ao mundo numa tal vivência da mediocridade que se torna inevitável mediocrizar a própria vida. Qual o destino comum, se transformamos o feio em valor, a feiúra em modelo, tomando a desarmonia como padrão e tendo o grotesco como símbolo? Os seios e pernas de Gisele são mais belos do que as mãos e rugas de Tereza de Calcutá?

Ora, o ser humano, antes de mais nada, tem direito à beleza. O belo é a nossa máxima aspiração, um destino. A feiúra é bloqueio, são tropeços, interrupções. Mais do que profética, foi de uma simplicidade quase absurda a constatação de Dostoievski de que “a beleza salvará o mundo”. Não há outra saída. Pois beleza é harmonia, cada vez mais necessária e ausente num mundo e num tempo desarmônicos. Beleza é encantamento, E, no entanto, o belo passou a ser o espetacular, máscaras com utilidade apenas econômica, sem essência, inanimadas. Modelam-se e maquiam-se corpos humanos como se para esconder o belo interior. E, no entanto, até as pedras têm vida. Basta pensar em Michelângelo encontrando a alma escondida em blocos de mármores. O seu Davi estava oculto na pedra.

Quando se fala em tantas éticas, fala-se de ética nenhuma. São ruídos, farsas, desarmonias, máscaras, cantilenas espalhafatosas. São “coisas feias”, uma feiúra que se torna ainda mais amedrontadora quando tentam transformá-las em belezas ou conquistas de um tempo. A degeneração é ruim. E o belo não pode ser degenerado. Pois a beleza e a verdade caminham juntas. Acho que morrerei repetindo e insistindo na visão profética de Dostoievski: “A beleza salvará o mundo.” E radicalizo ianda mais: só a beleza poderá salvar-nos. Pois o belo é o bom, o belo é o justo, o belo é o harmonioso. A beleza da vida é um direito humano à epifania de viver. Talvez, pois, apenas a retomada do belo como valor e como direito possa fazer essa faxina que, mais do que ética, é estética.

É “coisa feia”, isso a que estamos assistindo. É “coisa feia”, isso tudo que estamos vivendo. A salvação está na faxina estética. A feiúra moral repugna. Penso em Piracicaba. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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