Jovens e tolice.

Lembro-me do grito de minha geração, lá pelos anos 60: “Não se deve confiar em quem tem mais de 30 anos.” Deu no que deu e, no entanto, o grito parece que ainda está no ar, com valor judicial. Fala-se em ditadura dos jovens, o que é uma solene, imensurável, elfantia besteira. Os jovens são ótimos, mas apenas isso. Ótimos na vitalidade, ótimos no sonho, ótimos na coragem, quando têm coragem. E, no entanto, são tolos, profundamente tolos. A juventude, em todas as gerações, foi o momento da tolice, das grandes e monumentais burradas, das descobertas em que, trefegamente, nos afogamos e de que nos embebedamos.

O jovem é um bêbedo da vida, sempre embriagado com expectativas, esperanças, sonhos, conquistas. Isso é bom, bom demais. Mas, apenas, apenas, um momento da vida. Que passa e que, passando, costuma deixar escombros. A beleza está em recomeçar a partir dos escombros, das ruínas. Mas é difícil e desafiador e, então, os rostos amargos da maturidade, os olhares sem brilho, almas cansadas.

Escrevo essas coisas pensando em alguns jovens com que tenho conversado, o cansaço que há neles. Envelheceram antes do tempo, perdendo, assim, a oportunidade de serem tolos, de viverem esse milagre que é a tolice humana. Pois estou defendendo-a, a tolice. É preciso ser tolo na vida, o mais possível, a única maneira de começar a entender algumas coisas. Quem não é tolo na juventude acaba tornando-se velho amargo, sem ilusões. E a grande ilusão está em reconstituir a partir dos escombros da juventude, o mais belo dos desafios.

Os jovens que não desafiam normas e nem regras, que aceitam passivamente o que é ditado pelas convenções, esses nem sonham e, portanto, nem perdem sonhos. Vivem como que em edifícios impenetráveis impermeáveis de onde olham a vida sem tê-la vivido, onde apenas conseguem ver a vida passar, monótona, monocórdia, monologante como personagem de Garcia Marques.

Estou desconfiado de que as coisas não estão bem porque os jovens ficaram com medo de errar, de ousar, de desafiar, essas tolices que acabam dando em nada, mas que são necessárias para se descobrir o mistério de viver. Faltam D. Quixotes, eis a questão. Nada há de mais tolo do que um D.Quixote e, no entanto, nada há de tão belo, de tão fascinante. Está todo mundo querendo acertar, mas conforme as regras que aí estão. Será que a saída não está em mudar as regras?!

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