Jurar e abjurar

picture (69)De passagem, ouvi uma jovem dizer, à amiga, que iria abjurar o namorado. A outra não entendeu nada: “Abjurar? O que é isso?” A abjurante não soube responder. Deu de ombros e falou do abjurado: “Sei lá… Mas não quero mais saber dele.” De uma certa forma, a jovem acreditava, naquele momento, conhecer seus novos sentimentos: o que tinha sido não era mais.

Abjurações significavam renúncias, negativas solenes. Porque solenes eram as questões de fé, de crença, de compromissos humanos. Tempos dogmáticos exigiam fidelidades absolutas. Basta lembrar que diziam ser santas até as fogueiras da Inquisição, também dita santa. Abjurava-se o demônio, Satanás, até a ciência. Apóstatas, hereges, cismáticos – querendo reconciliar-se – precisavam fazer abjurações solenes. E os espertos, para não virar torresminho. Galileu foi esperto. Sobreviveu.

Os tempos não têm mais solenidade. A moça – em vez de xingar o namorado e mandá-lo às favas – quis abjurá-lo. E a solenidade pública foi falar com a amiga na calçada. Lembrou Fernando Henrique, antes de ser candidato a presidente. Sem ninguém perguntar-lhe nada, abjurou, à frente dos jornalistas: “Esqueçam tudo o que escrevi.” Não é lá bem abjurar, mas é. Pois, hoje, o solene está no ritual do “fast food”, do “prêt-à-porter”, do descartável. Tudo é, ao mesmo tempo, absoluto e descartável, eterno e passageiro, verdadeiro e falso. A verdade de hoje é a mentira de amanhã. Logo, é preciso, hoje, abjurar a verdade de ontem. Dá trabalho.

Admitamos: abjurar não é propriamente o termo. Mas tornou-se por dar-se, a quase tudo, a dimensão de absoluto e de dogma, mesmo que se esfarele em seguida. É, penso eu, o admirável desses nossos tempos interessantes: criam-se dogmas em velocidades incríveis; torna-se heresia discuti-los ou questioná-los. Logo em seguida, desaparecem, substituídos por outros. Nem o PT escapou. Antes de chegar ao poder, era um partido dogmático. Em chegando, viu-se diante da realidade política e se tornou cordial na encantadora doçura do evangelho de Lula, “paz e amor, companheiros e compadres.”

Essas coisas, vêm-me elas à cabeça, por essas estrepolias da internet, o paraíso dos chatos. Ninguém mais tem sossego. De repente, vem um chato de plantão e tira vespas do vespeiro. Um deles fez circular um trecho de entrevista do Lula no ano 2000: “Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha. Porque sabe o que acontece? Tem muita gente que tem o direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho.”

Ora, Lula não mentiu. Nem antes, nem agora. Ele apenas esqueceu de abjurar. Bastava repetir Fernando Henrique e dizer: “Esqueçam o que eu falei.” Pois política é nuvem que muda a cada momento. Como a vida. Quem já não jurou amor eterno? Quem já não quis salvar o mundo? Lula aceitou ser Messias e, apenas, se esqueceu de contar que acordou. Podia fazer a banal abjuração de nossos tempos, bocejando: “Sabe, minha gente? Eu me enganei. Governar o Brasil não é o mesmo que ser presidente de sindicato.” Aliás, um ex-prefeito de Piracicaba disse ser mais difícil ser presidente do XV do que administrar a cidade. E não precisou abjurar nada.

Criamos um mundo do faz de conta. De mentiras coletivas, a imensa mentira universal. Mas – diante da absurdidade da vida – de que outra forma viver o absurdo? Inventa-se o mundo: uns mentindo aqui, outros mentindo lá, todos fingindo acreditar. Jura-se agora, abjura-se depois. Para jurar novamente. E bom dia.

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