Lentes cor de rosa

Cor de rosaUm dos mais graves problemas de Piracicaba está no fato de ser, ela, uma cidade privilegiada. Pois, como se sabe, os privilegiados perdem a noção da realidade, quase sempre ignoram dores alheias e acabam recolhendo-se em mundos fictícios e egoístas. Cidades e pessoas privilegiadas são iguais em seu egoísmo e em sua cegueira diante das ameaças que se aproximam e que elas não enxergam. O egoísmo cega.

Não poderemos dizer sejamos um povo com grandes problemas. Nem que Piracicaba tenha graves dificuldades estruturais. Pelo contrário, todos os que estudam a realidade sócio-econômica de Piracicaba se rendem à constatação de que nos temos colocado acima da média das cidades do mesmo porte. Tanto assim é que – nos estudos que a comunidade têm feito sobre si mesma – as expectativas são amplas e alvissareiras. Desde que, obviamente, se arregacem as mangas e se enfrentem, com galhardia, as dificuldades que precisam ser superadas. Entre elas, a questão – que é nacional – da violência e da insegurança, ainda distante dos limites extremos em Piracicaba. Mas com sinais claros de que já chegou, como uma doença que se espalha, contágio que alcança uma a uma das partes do organismo social.

Por que tem havido, também em Piracicaba, crimes com tantos detalhes de crueldades, inseguranças cada vez mais assustadoras? Tais violências eram-nos apresentadas através de cinema e televisão em grandes centros urbanos, onde está deflagrada a guerra civil entre polícia e bandidos, entre quadrilhas, entre o Estado constitucional e esse Estado ilegal de traficantes e criminosos que vai ganhando espaço pelo fracasso das autoridades e da sociedade como um todo. Os extremos de crueldade são avisos que os bandidos deixam aos que pretendam fazer-lhes frente, incluindo quadrilhas rivais: tortura-se, degola-se, mata-se, queima-se – numa barbária que não mais se imaginava pudesse ocorrer onde estivesse plantada a civilização. Mas está havendo. E faz escola.

Os níveis de violência e de criminalidade em Piracicaba são, ainda, suportáveis, se considerados em relação a esse novo, perigoso e caótico mundo que já surgiu, por exemplo, na chamada Região Metropolitana de Campinas. Há, em nossa vizinhança, o terror e o horror instalados. Piracicaba, à margem das grandes rodovias, podia, até recentemente, considerar-se – pelo menos em relação à violência e à criminalidade – como um nicho privilegiado, mas nem por isso incólume ou inatacável. Ora, há tempos vimos alertando – chamando a atenção de autoridades e lideranças – para o perigo de contágio, ao nosso tecido comunitário, das enfermidades sociais que estão levando a Região Metropolitana de Campinas à UTI. Era, dizíamos, tempo para nos prevenir, para nos acautelarmos, para tomar providências. Será que nos descuidamos e a doença chegou?

As notícias sobre crimes e delitos, muitos deles cruéis, são alarmantes e deveriam servir como grave advertência para essa paralisia social de que estamos sendo vítimas, com autoridades e lideranças olhando a cidade com as lentes róseas dos óculos de Pangloss ou como Alice no País das Maravilhas. Corremos um risco ainda maior, com o estímulo a um novo surto industrial desorganizado que poderá repetir o que já nos aconteceu na década de 1970, quando as sementes da favelização foram plantadas. Olhar a cidade apenas pelo prisma dos automóveis, das pontes, das largas avenidas para escoamento da produção, de novas indústrias poderá ser um golpe fatal na secular qualidade de vida dos piracicabanos, agora já martirizados pelas falhas gritantes na educação, na saúde, na segurança. E o que virá depois? Ou as lideranças saem de suas zonas de conforte e tiram seus óculos cor de rosa, ou não haverá tempo sequer para chorar pelo leite derramado. Há uma lei que tem sido esquecida: povo ferido jamais será contido. O ovo da serpente está germinando. Ou Piracicaba mata a cobra e mostra o pau, ou a cobra irá procriar e, pelo medo, vencerá os que não a mataram. Bom dia.

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