O Mundo, a Lusitana, o jornal

LusitanaÉ lembrado, ainda hoje, o famoso slogan de uma transportadora portuguesa que se espalhava pelas rádios brasileiras: “O mundo gira e a Lusitana roda”. O mundo continua girando, confesso não saber se a Lusitana ainda roda. O incrível é que o jornal “O Estado de São Paulo” não sai do lugar, do mesmo lugar que ocupa desde as suas origens, como representante do baronato do café paulista.

Nos 1960, corria a versão anedótica de que uma das filhas do falecido Júlio de mesquita Neto – grande jornalista, cultura enciclopédica e líder do conservantismo brasileiro – fôra passar as férias em Paris. Ao chegar ao hotel, foi-lhe pedida a identificação, nome, filiação, endereço. A moça respondeu: “Sou filha do dono do Estado de São Paulo.” O dono do hotel empolgou-se, pois pensou estar diante da herdeira do maior estado do país, não de um jornal. Na verdade, àquela época, Júlio Mesquita Filho era dono do Estadão e acreditava ser dono também da mais poderosa parcela da Federação, o Estado de São Paulo.

O Estadão continua o mesmo. Nada parece existir a não ser as suas próprias convicções, os interesses de grupos e instituições de que faz parte ou que passou a representar. Ora, se isso pode parecer um mal, trata-se, no meu entender, de um bem. Pois nada existe de mais falso e mistificador do que dizer-se que a imprensa é imparcial, que é isenta em suas considerações. Não o é, nunca o foi. A imprensa, na realidade, precisa apenas ser honesta, pois tem o direito a opiniões, a posicionamentos ideológicos, a escolhas partidárias, ao acolhimento de filosofias. O que se deve exigir de jornais e da imprensa como um todo é essa honestidade de se definir, pois a parcialidade faz parte do exercício do jornalismo. Só que, por parcialidade, entenda-se ser parte, fazer parte, o que é diferente do facciosismo. O jornalismo honesto defende suas convicções, declarando-as abertamente e, ao mesmo tempo, abrindo espaços aos que pensem ao contrário. Nesse sentido, o Estadão continua o mesmo: um jornal com convicções próprias, nem sempre as que melhor servem ao povo brasileiro, mas honesto.

Ora, a notícia é que tem ser ser objetiva, isenta, fria: o quê, quem, quando, onde, como. A opinião, por sua vez, é formada por todo um processo subjetivo, cultural, filosófico. Diante de uma notícia objetiva e fria, pode haver diversas opiniões. O editor de um jornal, no momento em que escolhe a manchete do dia, está opinando, oferecendo a sua escolha. Por isso, não se deve cobrar, da imprensa, o jornalismo isento, que este não existe. Mas há que se cobrar o jornalismo honesto. Assim, se o jornal está alinhado, por exemplo, ao Partido Comunista, há que se respeitar a sua escolha, desde que ela seja declarada e exposta. Quem discordar não leia ou assine o jornal. O mesmo ocorre com jornais conservadores, como o Estadão, que nunca ocultou de ninguém o seu alinhamento ao liberalismo econômico, a sua devoção à doutrina liberal conjugada por Júlio Mesquita e por seus descendentes.

No entanto, até essa honestidade de afirmação implica perigos à verdadeira informação, pois, sendo partidário, corre-se o risco de ser faccioso. E, assim, o mesmo jornal que vê o cisco no olho do adversário nem sempre mostra a trave no olho do amigo. O que o Estadão, por exemplo, diz a respeito de Lula e do PT é um esforço constante de revelar falhas, erros, escândalos, mas se omite em relação aos governos do PSDB e, em especial, ao de José Serra. A insistência no mensalão do PT é facciosa, pois omite a origem de toda essa sujeira: o mensalão do PSDB em Minas Gerais. Quando se fala da neta de José Sarney, pedindo emprego ao namorado, criam-se escândalos; mas há silêncio para revelar que a filha de Fernando Henrique Cardoso era funcionária fantasma do Senado, no gabinete de um senador do DEM. E como se entende que a grande imprensa condene, como um escândalo, as alianças do PT com o PMDB se, em São Paulo, o maior aliado de José Serra é exatamente Orestes Quércia, o principal cacique peemedebista entre os paulistas? Aliás, Fernando Henrique, Serra, Covas deixaram o PMDB, criando o PSDB, alegando um protesto contra a corrupção que, segundo eles, Quércia promovia naquele partido.

O Estadão, pois, continua o mesmo. Tanto assim que, ainda hoje, se um dos bisnetos dos Mesquita for a Paris, poderá repetir a mesma história: “Minha família é dona do Estado de São Paulo.” E poucos saberão se a referência é ao jornal ou ao estado da federação. Para se ver, pois, que o mundo gira, a Lusitana roda e o Estadão não sai do lugar. Bom dia.

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